
All About Eve. EUA, 1950, 138 minutos. Drama.
Indicado a 14 Academy Awards, venceu por Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro, Melhor Ator Coadjuvante (George Sanders), Melhor Som e Melhor Figurino.
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Permitam-me começar essa resenha com a seguinte frase: A Malvada é um dos melhores filmes lançados no século passado! Demorei bastante para vê-lo e quando fui assistir, esperava um filme bom, que me entretivesse e do qual eu gostaria. No final, concluí que o filme é ótimo e que poucas vezes achei uma obra tão boa. Lançado há 59 anos, o filme é brilhantemente atemporal, característica sobre a qual comentarei mais adiante.
Margo Channing é uma famosa e importante atriz do teatro que descobre em Eve Harrington uma grande fã. Conheceu-a bastante humilde e desprotegida, o que fez com que decidisse abrigar Eve em sua casa. Rapidamente, a jovem garota tornou-se não somente uma boa amiga, mas também uma assistente eficiente e fiel. Usando Margo como estratégia para chegar ao estrelato, Eve interpõe-se entre seu ídolo e todos que a cercam, criando uma acirrada disputa pessoal.
Antes de dar continuidade ao que vou escrever sobre o filme, gostaria de perguntar se a sinopse que fiz acima fez com que vocês se lembrassem de alguma novela. Para aqueles que se lembram bem, o mesmo que escrevi acima poderia ser usado para resumir a novela Celebridade, cuja história se baseou claramente no roteiro de A Malvada. Laura Prudente da Costa foi uma versão menos escrupulosa de Eve Harrington e Maria Clara Diniz é um vinte avos do que Margo Channing foi. De qualquer maneira, a intertextualidade apresentada foi bem válida e eu gostei do resultado desse roteiro na dramaturgia. Retomando a resenha, disse que o filme era atemporal e de fato é: se não fosse pelo tom em preto e branco - que dificilmente é usado nos dias de hoje -, pensaríamos tratar-se de um filme bem recente, pois não há nada nele que indique a idade que tem.
O roteiro nos traz uma história básica, sem grandes enfeites, mas que ganhou proporções divinas nas mãos de Joseph L. Mankiewicz, o diretor - que também é o responsável pelo roteiro. Não é raro vermos situações em que a mesma pessoa que escreve o filme também o dirige, embora a qualidade fique aquém do desejado. Não posso dizer isso sobre a direção de Mankiewicz , que é impecável e nos traz uma obra inesquecível. Acho importante realçar também o quão bela é a fotografia: os enquadramentos são devras bonitos, nos permitindo ver com grandiosidade os pequenos momentos do filme. Aproveitando, gostaria que, quando forem assistir à obra, atentassem para a excelente cena na qual, já bêbada e irritada, Margo Channing sobe as escadas dizendo que vai se deitar, mesmo antes de a festa que está dando acabar. Diante das reações, ela aproveita para lnaçar uma venenosa crítica a Eve. Acredito que esta cena mostra muito bem o cuidado com a fotografia, pois tudo nela funciona bem: Margo está centralizada, no alto da escada - acima de todos -, e Eve, embaixo, a olha com suprema condescendência; a cena se mostra uma clara metáfora ao relacionamento dos personagens, já que é através da aparente fidelidade que Eve deseja chegar ao topo, onde está Margo.
Sinto que entro num território perigoso, pois agora falarei sobre as atuações. Incapaz de adjetivá-las corretamente - de tão grandiosas que são -, tentarei ser o mais fiel possível à minha opinião. Definitivamente, não há ator no filme que esteja aquém de qualquer expectativa, pois todos desenvolvem excelentemente seus personagens. George Sander, ganhador do Oscar pela sua intepretação no filme, Hugh Marlowe e Gary Merril, intérpretes respectivamente de Addison, Lloyd e Bill alicerçam o lado masculino da trama, que, embora tenha importância, está mais à parte, pois o grande destaque são as mulheres. Celeste Holm, no papel de Karen Richards, está muito bem; sua bondade é tamanha que quase acreditamos tratar-se uma personagem inexistente na vida real. Thelma Ritter, intérprete de Birdie, assistente de Margo, também fez bem seu papel, embora apareça bem pouco; acredito que ela seja aquilo de que toda estrela exagerada como Margo precisa, pois é um contraponto do temperamento da patroa.
Chego, por fim, as duas grandes estrelas da obra: Anne Baxter e Bette Davis. Excelentes, absolutas e inquestionáveis, suas interpretações são imensamente ótimas e - ouso dizer - incomparáveis. Anne Baxter soube trazer o misto de dedicação e veneno necessários à sua personagem sem se fazer caricata. De uma maneira brilhante, tememos a sua personagem desde o momento em que percebemos que há muito mais do admiração e que tudo o que ela quer, defnitivamente, é ser Margo Channing. Gostaria de ressaltar uma cena na qual temos o primeiro contato com os sentimentos de Eve: ela se oferece para levar o vestido que seu ídolo usou durante a apresentação para ser lavado; Margo sai à procura de Eve, para dizer que é melhor deixar a camareira fazer isso e se depara com Eve a olhar-se diante do espelho, imitando-a com a roupa sobre a sua, tentando reproduzir o que Margo fez durante a peça. Baxter compõe uma personagem que assusta. Embora deteste comparar personagens únicos, ela, de alguma maneira, é como Hannibal Lecter; apenas uma versão mais sutil e feminina - talvez iminentemente mais perigosa, por causa da máscara de bondade que cobre suas intenções. Bette Davis, extremamente expressiva e muito bonita, está perfeita! Não há que eu possa dizer a respeito de seu trabalho a não ser que está magnífica. Mesmo quieta, seus olhos são absurdamente vibrante e ela nos diz com olhares tudo aquilo de que precisamos saber. Margo Channing é tudo aquilo que muitas mulheres gostariam de ser: cobiçada, poderosa, irredutível - e como se não bastasse há ainda a personalidade forte e marcante, o que é capaz de criar amigos e, principalmente, inimigos, que podem inclusive esconder-se sobre o teto de sua casa. Embora queira escrever muito mais sobre Bette Davis e sua inesquecível Margo, não vejo com continuar sem ser repetitivo.
Curiosamente, devido à fama de intolerante que Bette Davis teve, muitos pensam que ela é “a malvada” a que o título - péssimo, por sinal - se refere. Tudo Sobre Eve, uma tradução literal, faria com que o espectador rapidamente identificasse quem é o personagem central da obra, além, logicamente, de possuir muito mais charme do que “A Malvada”, que, aliás, não é a característica mais marcante de Eve. Se considerarmos que seu único objetivo é alcançar o topo - mesmo que para isso tenha que incomodar algumas pessoas -, diríamos que ela é muito ambiciosa, mas não malvada, como o título nacional sugere que ela seja.
Como disse no primeiro parágrafo, esse é um dos melhores filmes lançados no século passado! É totalmente crível, suas características fortes são extremamente positivas e as negativas, se existem, são minúsculas. Muitos assistem a bons filmes, mas acabam por criticá-los por ser “velhos” - na verdade, consideram-no assim apenas por ser em preto e branco. Às pessoas que não gostam de filmes em P/B, recomendo que não assistam A Malvada, pois, é um filme cuja qualidade tem proporções gigantes e certamente não merece ser criticado pelo simples fato de não gostarem do tom usado. Acredito, no entanto, que esse seja um filme capaz de agradar a todos os espectadores, desde os menos exigentes até os mais exigentes, como eu. O figurino do filme é excelente, o que nos agrada; as interpretações são magistrais, o que é ótimo; o roteiro é eficiente, a direção é impecável, o filme, como um todo, é uma obra-prima!
Luís
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Dentre os clássicos que assisti até agora, em Bonequinha de Luxo a melhor atuação feminina, e Casablanca possui o melhor casal da história. E mesmo com tudo isso, A Malvada foi o filme que eu mais me entretive, pois acho que ele tem o melhor conjunto em termos de melhor enredo, melhores atuações, melhor direção, e etc..
Voltando ao filme, talvez o que mais chame a atenção no longa é a atuação de Bette Davis. O olhar desprezo com aquele olho meio fechado que ela lança a todos na maioria do filme é incrível demonstrando, só pelo olhar, o tamanho da capacidade de sua atuação. Sua personagem (Margo) é a melhor atriz de teatro em sua geração. Nem preciso dizer que ela é extremamente famosa e isso traz a personagem um tom ácido para com os outros, que fica dez vezes melhor com a atuação de Bette. Outra que chama a atenção é Anne Baxter (Eve) que idolatra Margo acima de tudo, e depois que tem uma chance, torna-se indispensável para a vida desta, já que ela é uma espécie de secretária particular de Margo que organiza toda a vida dela. O problema é que aos poucos Eve vem tomando o lugar dela, até chegar ao ápice de sua carreira, e é nesse momento que o filme começa. Anne Baxter nos passa uma sensação de inocência e pureza incríveis, fazendo o telespectador sentir, ao mesmo tempo, compaixão pela pobre garota que vai a busca de seu sonho e também receio pelo que uma mulher em busca de seu sonho pode fazer, pois apesar de gostarmos muito de Eve, em nenhum momento Anne supera a atuação de Bette Davis. Temos também outros nomes famosos no filme como Marylin Monroe que ficaria muito mais conhecida mais tarde em O Pecado Mora ao Lado, entre outras atuações boas como Celeste Holm como Karen, que é uma das ludibriadas pelo encanto de Eve, fazendo-a tramar contra a própria amiga Margo. Há também Addison De Wit que se torna importante no final colocando Eve no seu lugar além descobrimos um personagem tão ambicioso e mau caráter quanto ela. Tenho que citar ainda que o ator que menos convence em seu papel é o que tem um envolvimento com Margo e que mais tarde sofre a tentativa de sedução por parte de Eve, mas acho que isso se deve por ele ficar entre as grandes atrizes do filme, Bette Davis e Anne Baxter, e assim, acaba ficando bem apagado no filme. Espero que entendam que quando adjetivo as atuações, faço em comparação com as melhores do mesmo filme, pois seria idiotice falar desmerecer qualquer ponto de um filme como esse.
Outro ponto que acrescenta no filme é o roteiro muito bem escrito, desenvolvido, além de atual, pois como o Luís disse, a estória é praticamente a mesma da novela global Celebridade. A direção junto com o roteiro torna o filme muito agradável, fazendo quem assiste nem perceber às 2h e 18minutos. Além disso, tudo há o charme do preto e branco que nos remete a uma época de classe e luxo do cinema.
Com tudo isso, não há como não recomendar A Malvada (mesmo que o título possa parecer um pouco enganador, já que não há maldade, mas sim ambição), pois garanto que quem gosta do cinema clássico se divertirá muito vendo esse filme .
Renan