Literatura e Cinema

“Sem correr no corredor, Nancy” - Freddy Krueger, em A Hora do Pesadelo.

domingo, 4 de janeiro de 2009

O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN

Brokeback Mountain, 134 minutos, 2005. Drama.

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Antes mesmo de o filme surgir, não rolavam boatos sobre ele. Talvez isso tenha criado uma expectativa maior em relação ao filme. Eu não esperava um filme com forte teor sexual; esperava mais ver os conflitos de um relacionamento mal visto pela sociedade do que ver cenas espantosas de sexo homossexual. Depois de assisti-lo, cheguei à conclusão que mesmo se essas cenas fossem abordadas de maneiras mais explícitas, como em Meninos Não Choram, o diretor Ang Lee teria feito um trabalho impressionamente emotivo do mesmo jeito.

O meu primeiro elogio vai à escolha dos atores: Heath Ledger e Jake Gyllenhall. Acho que os dois eram os personagens transcritos, uma vez que aparentam um ar rústico de vaqueiros, não parecem gays e tem semblantes que nos remetem a duas pessoas que parecem grandes amigos, fazendo com que já simpatizemos desde o começo do filme com eles. Quanto à escolha, também não posso deixar de dizer que é bem feita, uma vez que os atores conseguem passar bem o carinho e emoção que sentem um pelo outro, mesmo nas cenas em que ainda não se consumou ainda o ato sexual e eles ainda parecem constrangidos em relação àquilo que irão enfrentar. Basicamente, o que quero dizer é que eles têm química.

Acho que o mais marcante no filme é o momento de ruptura entre o pensar, o querer e o fazer; esse é o momento em que eles deixam de lado preconceitos e se relacionam de maneira brusca e furiosa, sem nenhum sentimento aparente que não seja a vontade de transar, ainda que percebamos um Jack Twist mais compulsivo inicialmente, deixando o outro comandar logo em seguida. A partir dessa cena, o relacionamento entre os dois está livre das proibições deles próprios e flui facilmente. Os momentos anteriores a essa ruptura que citei, no entanto, são bastante sutis, fazendo com o que primeiro o espectador goste de cada personagem supostamente heteressoxual pelo que ele é, sem poder construir uma imagem preconceituosa a respeito de cada um; depois da ruptura, passamos a vê-los como um casal, independentemente do fato de que sejam dois homens. A cena citada acima, no entanto, me pareceu meio forçada quando a vi: não esperava gentilezas, não num momento impulsivo como aquele, mas achei meio exagerado a facilidade com que acontece, uma vez que quase não vemos desenvolvimento, apenas um abaixar-calças-cuspir-na-mão-e-tudo-pra-dentro. Mas, enfim, foi bastante útil na sua intenção de expressar o que queira.

O filme, no entanto, não gira apenas em torno de Ennis Del Mar e Jack Twist. e isso foi um fator bastante interessante a ser mostrado: a omissão para fugir do preconceito de assumir uma relação que vai contras os príncipios morais e que a sociedade não aceita. Logo, os personagens acima precisão de esposas! E é nesse contexto que entram as atrizes Anne Hathaway e Michelle Willians e participações bastante significativas, sendo que a segunda inclusive foi indicada ao Oscar. Outra cena bastante pesada do filme, não pelas cenas mostradas, mas pelo que se subentende que a esposa de Del Mar sinta, é quando os dois se reencontrão após Jack mandar-lhe um postal e os dois, mais uma vez impulsivamente, só que desta vez pela saudade, se beijam e a esposa os vê. Impressionada, ela ainda age normalmente, embora o casamento não possa durar assim. Já Anne Hathaway está muito boa nesse filme, tanto quanto esteve em todos os outros filmes que eu assisti com ela, sendo o de maior destaque O Diabo Veste Prada. A seleção dessas duas atrizes foi bastante essencial para o resultado final da obra.

Outra coisa que gosto também no filme, além da sutilidade das cenas, beleza e complicação nos relacionamentos, é a fotografia bucólica das cenas da montanha, cenário do envolvimento de Ennis e Jack. Confesso que não esperava menos de Ang Lee, uma vez que ele é bastante bom ao passar do roteiro para as telas relacionamento densos, visto que foi ele o diretor de Razão e Sensibilidade. Porém, acho que há um pequeno defeito no filme: aquelas repetições dos encontros dos rapazes na montanha. Isso apenas prolonga o filme e não acrescenta muito, uma vez que o essencial para embasar o que pensamos sobre os dois já foi mostrado até metate do filme, inclusive a forma como tentam “escapar” dos olhos da sociedade. As mais de duas horas de fillme são desnecessárias e cansa um pouco quem assiste, mas o filme contorna a situação. A narrativa lenta contribui para nos afeiçoarmos às personagens no início, depois se torna bastante infeliz.

Não comprendi o motivo pelo qual ao nome original foi acrescentado o medíocre “O Segredo de”. Bastava traduzi-lo literalmente ou mantê-lo como no original, uma vez que sabemos a importância da montanha para a consumação da relação. Mas isso não é culpa dos atores, diretor ou produtores; isso é culpa dos brasileiros escrotos que acham mais interessante contar o filme no título ou inventar acréscimos bizarros a algo compreensível. Recomendo o filme totalmente, porque tudo no filme parece funcionar: o quarteto de atores, que dão um show; o roteiro, que se preocupa em não abichanar os gays, tornando o relacionamento deles bonito; o diretor, que dá enfoque necessário no que é preciso. Enfim, assistam-no.

Luís

P.S.:  Não se deixe levar pelo pensamento estúpido de que só porque conta a estória de homossexuais que o filme é vulgar.

criado por Luís/Renan    18:03:19 — Arquivado em: Filmes — Tags:

2 Comentários »

  1. Comentário por Rafael — segunda-feira, 5 de janeiro de 2009 @ 00:47:44

    Sim, o filme é legal. mas não fala isso pra minha mãe.
    Como em qualquer filme romantico, ele te envolve e vc acaba sentindo as dores(nao no sentido literal, gostaria de deixar bem claro) das personagens. É obvio que comentarios de cunhado quando há um afeto maior entre os dois realmente acontece, quando vc esta assistindo o filme com o mesmo. Mas enfim, o filme trata do homossexualismo como um tema pra gerar um drama, e não um tabu pra chocar a sociedade.
    E é óbvio que o Jack é o passivo.

  2. Comentário por Luís — segunda-feira, 5 de janeiro de 2009 @ 18:54:25

    Ah, o filme deixa bem claro que o Jack é o passivo.
    Jake Gyllenhall parece o mais afeminado em alguns momentos, mas não se torna, em instante algum, uma ‘bichinha’.
    Heath Ledger é o rapaz sentimental e indeciso, que recusa inicialmente, mas se recolhe confortavelmente no abraço do outro.
    Isso o filme também mostra.

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