quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
TRANSAMÉRICA
Clique na imagem para ver o trailer do filme (sem legendas).
Transamerica, 2005, 103 minutos. Drama.
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Este sem dúvida é um dos filmes mais legais que já assisti. Não há dúvidas de que tudo nesse filme funciona: elenco, direção, fotografia, roteiro, trilha sonora. Desde os minutos iciais dá pra perceber o cuidado técnico que existe no filme e isso segue até o final do filme, sem oscilações no quesito qualidade. Qualidade, porém não é tudo e o principalmente objetivo de um filme é atingir o público-alvo.
Eu acredito que Transamérica cumpre o seu objetivo, sendo portanto um entretenimento muito bom. O filme conta a história de Bree, uma transsexual que está prestes a fazer uma cirurgia para se tornar definitivamente mulher quando recebe uma chamada de Nova Iorque sobre um suposto filho que está preso; decide então visitar o rapaz, fruto da única experiência heterossexual de Bree, quando ainda atendia pelo nome de Stanley. E na esperança de entregar o garoto a um resposável sem ter que confessar que é o seu pai, Bree e o jovem começam uma viagem junto pelos Estados Unidos, de forma que ela possa deixá-lo onde ele consiga se virar por conta própria. A primeira coisa que quero dizer é um recado para os homofóbicos e escrotos em geral: o filme não é um debate sobre a sexualidade, nem faz apologia à homossexualidade; o foco do filme não está na opção (ou condição) sexual de Bree, mas foca as relações humanas que se estabelecem entre ela e o filho e como eles são capazes de mudar e se adaptar à convivência com o outro.
Vou começar pelo roteiro, que achei bastante interessante. Desde o começo já temos especificadas as situações dos personagens e sabemos à primeira vista a forma como se enquadram na sociedade. Bree (Felicity Huffman) obviamente se encontra numa situação de separação em relação à sociedade, já que todos a olham de maneira acusativa e se mantem à distância, como se ela fosse doente. Toby (Kevin Zegers), filho de Bree, é um adolescente transtornado e sem grandes expectativas, que se prostitui e está envolvido com drogas, sempre tendo como base para o futuro a expectativa de encontrar o pai rico e ir morar com ele. É nesse ambiente abafado, em que nenhum dos dois tem um espaço entre os outros, que se conhecem, mentindo um para o outro e tentando um relacionamento estável ao mesmo tempo. O ponto alto do roteiro é explorar a carência de cada personagem, cada um à sua maneira e a forma como foram corrompidos e impedidos de serem eles mesmos por causa da ausência de afeto. E a tendência natural de duas pessoas carentes que passam muito tempo juntas se mostra presente e os dois se vêem mais positivamente, conforme o filme prossegue. Outro ponto bem explorado é o que cada um é capaz de fazer pelo outro e o quão capazes são de abrir mão das coisas que querem em função do outro, promovendo assim um auxÃlio mútuo. Toas as situações são bem postas no roteiro, nada parece perdido e as emoções de Bree e Toby se mostram presentes nos momentos certos e são perfeitamente compreensÃveis.
Os elogios aos atores do filme são inquestionáveis. Acho que várias atrizes seriam capazes de interpretar bem a personagem Bree; grandes nomes, como Meryl Streep, estariam bem como a transsexual protagonista do filme. No entanto, eu não troco a atuação de nenhuma atriz pela atuação de Felicity Huffman. Ela simplesmente criou uma personagem completamente humana, com todos os pensamentos que sabemos que sentimos; a transformação não é só fÃsica, como percebendo vendo os extras, que ela tingiu o cabelo, foi envelhecida, baixou em algumas oitavas o tom de voz para se assemelhar à voz de um homem com voz levemente afeminada. A transformação foi principalmente psicológica e a caracterização de seu personagem é sem dúvida premiável; tanto é que Felicity foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz. As cenas iniciais e as primeiras quando conhece o filho, mostram uma Bree completamente egoÃsta, focada na sua cirurgia e nas suas perspectivas de vida futuras; aos poucos ela cede conforme vai conhecendo melhor o filho e compreendendo as situações pelas quais ele foi obrigado a passar. Interessante também notar que apesar da transsexualidade e os aspectos religiosos e comportamentais que isso sugere, Felicity faz de Bree uma personagem conservadora e preservada, sempre impondo os bons modos e culta em relação à s coisas ao redor. Kevin Zegers, um ator novo, também se mostrou bastante competente sendo o contra-peso, sendo o oposto do que Bree é: revoltado e temperamental, o garoto leva uma vida auto-suficiente, com visões limitadas do próprio futuro, embora para ele seus sonhos sejam promissores. O ar selvagem e sujo iniciais se perdem conforme o filme passa e cabe a Kevin interpretar duas das três melhores cenas do filme, que é a revelação do abuso que sofria pelo padrasto e a forma como ele “vende a droga” que carregava no bolso para ajudar Bree a conseguir dinheiro e voltar para Los Angeles antes da data da cirurgia dela. A integração dos atores é excelente e podemos ver que estão em sintonia, seja nas cenas complicadas e de forte tensão emocional, ou nas cenas de relação estável e agradável. Destaque para a cena do carro, em que Bree começa a brincar com Toby de lutinha. A direção de Duncan Tucker também é muito boa e é um fator fundamental para que toda a densidade das cenas seja mostrada como é.
Existem alguns poucos exageros, como toda a participação da atriz que interpreta a mãe de Bree, e alguns clichês, mas nenhum filme está livre de falhas, mesmo que elas sejam grandes, como a maldita mulher que insiste e gritar o tempo todo em vez de atuar decentemente. Mas é um filme muito bom e eu o recomendo totalmente. Eu o asssitiria de novo e de novo, se cansar. Tem gente por aà que pensa que o tÃtulo sugere a pornografia que o filme apresentará; enganam-se e entenderão rapidamente a polissemia do “trans”. Alguns podem simplesmente não gostar desse filme, que se mostra um road-movie fabuloso, mas eu sugiro que o assistam, mesmo que haja quem não o recomende. Esse é o tipo de filme que não se pode tomar base base apenas a opinião de alguém; deve ser visto e analisado para somente depois ser “julgado”. Não acredito que esse seja um filme do tipo famÃlia, por causa da densidade de algumas cenas e também umas poucas cenas de nudez, embora essas revelem menos do que as novelas das oito.
LuÃs

criado por LuÃs/Renan
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