Literatura e Cinema

“Sem correr no corredor, Nancy” - Freddy Krueger, em A Hora do Pesadelo.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

CACHORRO!

Por Teatro Independente, 70 minutos.

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A peça Cachorro! estava na lista de peças apresentadas na Viagem Teatral e o que me chamou a atenção foi um trecho que dizia: baseada em obras de Nélson Rodrigues. Concluí que iria ver a peça. E agora, ao escrever essa crítica, são tantas as opiniões, todas positivas, que me passam pela cabeça que eu mal sei por qual é melhor começar. É difícil pelo fato da possibilidade de me perder nas vertentes que surgem: discorrer sobre Nelson Rodrigues, falar sobre a peça em si ou no que ambos, peça e escritor, resultam?

Solange e Almeidinha têm um caso. O grande problema disso é o fato de ela ser casada com Apoprígio, que trata Almeidinha como a um irmão. O amante tenta inventar maneiras de ter Solange só pra ele, enquanto ela evita largar o marido, que obviamente desconhece toda a situação na qual está inserido. O minuto inicial da peça já mostra a influência do escritor e também mostra sutilmente, mas com absurda eficiência, o que devemos esperar.  Antes que qualquer ator diga qualquer fala, podemos ouvir a cartomante em suas informações extremamente honestas; não me recordo com exatidão a ordem da fala, mas me lembro bem de certas passagens, tamanho o impacto que a cena proporciona. Ela diz que não precisa ver nas cartas para saber como será o fim daquela história; “conheci uma mulher [...]; morreu degolada e garoto (amante) ficou por aí, pulando carnaval”, diz a cartomante e completa: “esquece esse homem, vai pra sua casa e prepara a comida do seu marido. [...] Vai ter sangue, minha filha. Um bicho vai estraçalhar vocês”. E com essas falas da cartomante e com a cena da imagem, a peça realmente começa. Pelos momentos iniciais, aqueles que conhecem um pouco da obra de Nélson Rodrigues já percebem quantas características dele estão presentes ali: a esposa que trai, a insegurança que a envolve, a sensação de que algo não vai dar certo, etc.

Então, quando a peça realmente começa, exige-se silêncio total para que se possa apreciar a atuação dos três atores, que é fabulosa. Cada um está perfeitamente cabível no seu personagem, sem excessos e sem nos entendiar. A forma como o texto é conduzindo, intercalando os personagens em cena, é favorável para que não nos cansemos de um deles, mas acho que isso é praticamente impossível. Solange é a típica esposa dos livros de Nélson Rodrigues: trai o marido, mas o ama; seu amor, porém, não é carnal, mas quase maternal, tamanha a bondade e inocência do esposo, que traz o amante da esposa para dentro da própria casa e sugere a esposa que o sirva bem, como se ela já não o fizesse. E logo na primeira cena percebe-se isso, pois quando ofende Apoprígio, marido de Solange, ela repreende Almeidinha, o amante, dizendo-lhe que a ofenda, que a ponha de desclassificada para baixo, mas que nunca ousasse repetir aquilo sobre o marido dela. Conforme as cenas vão passando, quem assiste vai entrando no universando rodrigueando através da atuação irrepreensível  dos três atores.

O sucesso do teatro é visível; aposto que por onde passam são aplaudidos em pé. Em Rio Claro, cidade que não tem o hábito de frequentar teatros, a peça conseguir trazer tantas pessoas para assisti-la que nem sequer tinha lugares para que todos se acomodassem. Uma forma de se ver o quão boa é a peça é analisar a quantidade de pessoas de um dia para o outro; no sábado, eu me sentei numa fileira na qual apenas outras três pessoas se sentavam e no domingo tudo estava cheio, pessoas sentadas no chão, cadeiras trazdias com imrpoviso. Isso só pode querer dizer que a peça é realmente ótima. Afirmo com certeza de que há apenas duas peças das quais eu me lembrarei por um bom tempo e esta é uma delas!

Acho que o ponto mais favorável a todo o sucesso da obra é a forma como eles captaram a essência de Nélson Rodrigues e a forma com a qual os atores lidam consigo mesmos quando em cena. Só afirmamos que eles não são de fato um triângulo amoroso porque sabemos que é uma peça, caso contrário acreditaríamos em tudo que vemos, pois eles conseguiram abordar com extrema realidade tudo o que mostram e isso é o mais positivo. Acredito que não haja como não elogiar a direção, pois o diretor certamente fez um trabalho bastante eficaz ao conduzir os atores para que fossem capazes de nos mostrar tal peça. Vi inúmeros teatros até hoje e muitos deles com bastantes acessórios para compor o cenário, o que não garantia a minha apreciação. Em Cachorro!, os elementos usados são basicamente um “biombo” de papel vegetal e três holofotes. Pode parece pouco, mas somente esses elementos são capazes de nos fazer enxergar as indas e vindas dos personagens assim como nos permite localizá-los num cômodo da casa. E essa simples e eficiente maneira de compor as transições e locações me fascinaram, sendo um ponto a mais para a obra.

Gostei bastante também das citações presentes, algumas de maneira bem sutil, mas todas retomando a alguma obra do autor. Tendo lido algumas obras de Nélson Rodrigues e talvez influenciado por isso, percebi certas alusões; Solange começa a citar notícias de jornal sobre mulheres mortas e cita uma que morreu vestida de noiva, o que me remeteu à peça escrita em 1943 chamada Vestido de Noiva. O comportamento de Solange a respeito de Noêmia (personagem apenas citada) me remeteu ao comportamento de Engraçadinha a respeito do envolvimento de sua filha com Letícia, na obra Asfalto Selvagem. Mas é da obra A Vida Como Ela É que se pode ver muitas outras características, principalmente as relacionadas à Solange.Embora já tenho dito isso (umas três vezes), repetirei: todos estão belamente inseridos no universo do escritor!  E é necessário parabenizar quem produziu o texto, pois o fez muito bem.

Após a peça, Renan e eu conversamos um pouco com dois dos atores, que são bastante simpáticos. Eles compõem o Teatro Independente e Cachorro! é a primeira peça deles. Se na primeira peça já mostratam tanta qualidade, se continuarem assim, nem imagino o sucesso da décima peça. Sugiro que vocês visitem o site e leiam mais sobre os atores Carol Pismel, Felipe Abib e Paulo Verlings, que interpretam respectivamente Solange, Almeidinha e Apoprígio, e que também leiam sobre o diretor e os outros dois integrantes do grupo, que espero ver na próxima peça. No site deles, há também o calendário das apresentações. Se tiverem a oportunidade de assistir, façam-no. Se tiver que pagar para isso, faça-o também, pois vale a pena. E não pensem que é uma obra moralista, ou absurdamente séria, porque não é e isso constitui outro acerto. Há um misto de humor, drama, romance e até um beijo com bastante furor. É melhor eu parar de escrever, senão estouro o limite de caracteres e deixo o Renan sem espaço para a crítica dele…

Luís

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Das peças que fui assistir no teatro do SESI (tudo bem que não foram muitas), essa com certeza foi a melhor. Diferente de outras peças que carregam seus textos no surrealismo, essa é totalmente compreensivel a todos, tornado o tempo que passamos no teatro extremamente agradavel. Além disso o texto é muito (foi, e continuará sendo) atual: Uma mulher que trai seu marido com o melhor amigo dele.

Quanto ao cenário, minha impressão foi das melhores. Não foi utilizado nada mais que luminarias e pequenos objetos como o bule de café, flores e outros. Mas com certeza o que mais impressionou foram aquelas divisórias, que de longe parecem ser papel de seda, utilizadas como portas, paredes, além de dar um aspecto bonito e simples a peça, principalmente quando utilizado focos de luz.

Quanto aos atores…acho que não conseguiria traduzir o quão bons eles foram. Como disse o Luis, acho que eles tem afinidade e se não tiverem tanta afinidade assim, é mais uma prova da ótima interpretação deles. É muito fácil de acreditar na amizade entre os dois, e na relaçao de mulher-amante e mulher-marido. Tanto que consegumios entender o lado de Almeidinha, Solange e Apoprigio, não apenas julgando segundo manda a ética, mas conseguindo ver ali o amor entre eles, seja fisico ou fraternal. Além de bons atores, são também muito receptivos (Foi legal ouvir um sotaque diferente também. Carioca no caso).

O texto, como disse acima, é ótimo. Com uma linguagem de fácil compreensão, com xingamentos que usamos no cotidiando (Foi fantástico como “Sua Escrota” pareceu uma agressão mais forte que um tapa na cara), além de conter frases que me fizeram pensar, entre elas estão: “Anonimos não mentem”, e que o amor de marido e mulher era um “Amor de fotografia, triste”. Outro ponto legal foi a oscilação entre comédia e drama existente lá. Em algumas horas o espectador está rindo, e no segundo depois sentimos a tensão da cena e ficamos em silencio. E a história também é surpreendente. É incrivel ver Solange defedendo seu marido,se colocando no lugar dele para que as pedras sejam atiradas e dizendo que ele é um santo. Ou ver ela morrendo de medo de levar um tiro na boca, e virar um recorte como os que ela colecionava “O que meu pai dirá? Boca de mulher foi feita para passar batom”, diz ela, e o mais legal foi que eu não achei nem um pouco futil esse pedido. Boas também as cenas entre Almeidinha e Apoprigio, nos fazendo pensar se um amigo, realmente faria aquilo, usando todo o cinismo e a cara de pau que Almeidinha usa ou [SPOILER] um marido teria a coragem de matar sua amada esposa sufocada e a si mesmo depois [FIM DO SPOILER]

Com certeza é um teatro que valha a pena ver. Melhor que muitos filmes comentados aqui. Então se você tiver a oportunidade de ve-lo…chegue cedo, pois com certeza os ingressos se esgotarão rapidamente.

P.s: Me assustei em ver que realmente o ator pos uma folha inteira na boca, sem que aparecesse nenhum volume nas bochechas.

Renan

criado por Luís/Renan    18:17:04 — Arquivado em: Teatro

sábado, 18 de abril de 2009

AWAKE - A VIDA POR UM FIO

Clique aqui para ver o trailer do filme (com legendas).

Awake, 2008, 84 minutos. Drama.

Indicado ao Framboesa de Ouro nas categorias Pior Atriz (Jessica Alba) e Pior Dupla (Hayden Christessen e Jessica Alba).

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Acho fabulosa a arte de transformar um assunto relativamente interessante em algo absurdamente entediante e confuso. Não que pessoas que resistem à anestesia seja um tópico que eu ache particularmente divertido de se ver, mas certamente não é tão medíocre como o que esse tenta - e consegue! - nos mostrar. Quando o filme terminou, tive a nítida sensação de que era exatamente essa a intenção: mostrar o quão medíocre uma obra pode se tornar.

Clay é um jovem com problemas no coração e que está à espera de um órgão para fazer o transplante. Paralelamente, namora escondido com Sam, que trabalha para a mãe do rapaz; Lilith, mãe de Clay, é extremamente protetora quando o assunto é o seu filho e exige sempre o melhor em relação a ele, o que impede o relacionamento entre ele e a namorada. Quando finalmente vai fazer a cirurgia e é anestesiado, ele acaba ficando acordado.

Vamos analisar rapidamente o que essa básica sinopse pode nos mostrar: 1) a forma como um filho se sente considerando a superproteção da mãe, que o impede de coisas normais; 2) o relacionamento conturbado com a namorada, que quer oficializar o romance, mas não pode, por causa do item nº 1; 3) a sensação da pessoa, sabendo que ela pode não ter mais muitos anos de vida e ainda assim tem que conviver com a mãe (item 1) que impede uma namorada (item 2); 4) a sensação claustrofóbica de estar preso num corpo inerte, que não responde aos seus comandos embora se saiba que está consciente de todo o procedimento; etc. Não direi que isso não é mostrado no filme, porque é. O grande problema está na forma como isso é feito. Tudo parece absurdamente fictício, é quase impossível acreditar no romance entre Clay e Sam assim como é difícil acreditar que Lilith e Clay sejam só mãe e filho. Digo “só” porque eles mais parecem um casal, então praticamente temos um triângulo amoroso, sendo que um dos lados do triângulo é incestuoso. Quanto ao item 4, esse é o mais risível, porque tudo é tratado quase com misticismo. Aposto que a Mãe Dinah ficaria feliz assistindo a esse filme enquanto faz premoinções, mas pessoas normais achariam tudo um pouco patético. O que faz com que seja assim não são as passagens nas quais Clay passa por cenários que vão escurecendo e se relacionando com a morte do personagem; o problema é que o filme parece realista demais para a inclusão de cenas como essas, o que acabam destoando do restante das cenas.

E como se isso tudo não bastasse, eles ainda acrescentam uma reviravolta a partir dos cinquenta minutos, para deixar a coisa ainda mais complexa e fazer com que o espectador pense por que puseram aquela porra ali? a respeito do que passava na cabeça do roteirista quando ele resolveu juntar tudo. Descobrimos então que os cenários, a vida real e onde Clay está, soam ainda mais conflitantes e absurdos. A presença de personagens quaternários, que eu só não chamo de figurante porque tem um ou duas falas, atrapalha também o desenvolvimento do filme, pois cabe a esse indivíduo medíocre a exposição de comentários e situações infames. Tudo nesse filme parece desconcteado com o objetivo que eles queriam mostrar; aliás, tudo parece tão surreal que eu nem mesmo sei se o que eu acredito é realmente  que eles queriam mostrar. Talvez eu tenha entendido errado, afinal quando uma quadrilha de médicos vão executar golpes para ganhar dinheiro enquanto o potencial assassinado passeia no mundo dos mortos revendo entes queridos e conversando com outros mortos? Quando os médicos decente são gentis a ponto de sugerir que os médicos corruptos fujam antes que a polícia venha? Quando a pessoa que está aguardando a cirurgia sai da sala de espera, caminha pelos corredores, entra na sala de operação, veste avental, dá uma ajudazinha e ninguém no hospital consegue ver isso? Será que não tinha ninguém além daqueles médicos? Absurdos.

Não entendi a participação de Jessica Alba nesse filme. Ela ainda não é nenhuma atriz de grande destaque (me refiro à capacidade de atuação), mas já esteve presente em filmes com um pouquinho mais de qualidade, embora tivessem tido a mesma repercussão. Não culpo a atriz, porque às vezes deve ser difícil distinguir uma obra que parece ser boa e uma que definitivamente é boa e situações semelhantes já aconteceram com outras atrizes, com Halle Berry, Julianne Moore, Nicole Kidman, etc. O único filme com Hayden Christessen do qual eu me lembro é Jumper, que também não era muito melhor que esse, ainda que tivesse alguns efeitos especiais e entretivesse um pouco mais.

Não esperam uma recomendação para assistir a esse filme, porque eu definitivamente não a farei. Se forem a locadora e quiserem assistir a algum filme com Jessica Alba, procurem por outro, como Maldita Sorte, Mergulho Radical, ou outro qualquer. Se o que querem é filmes sobre médicos, sugiro que em vez de filme assistam ao seriado Grey’s Anatomy. Se o que procuram é alguma outra coisa, então não sei o que sugerir. Mas uma único eu digo: não assistam a esse filme. Nem sequer tiveram a dignidade de traduzi-lo e ficou essa junção pavorosa de título americano e subtítulo brasileiro. Por que eu deveria esperar dignidade desse filme? Do jeito que é, me surpreende que ainda tenha estreado nos cinemas e não ter sido lançado diretamente em vídeo.

Luís

criado por Luís/Renan    17:19:24 — Arquivado em: Filmes

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O LEITOR

The Reader, 2009, 124 minutos. Drama.

Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Kate Winslet).

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O filme narra a história do romance entre Michael Berg e Hanna Schimtz; ela, mais velha que ele, inicia o garoto na sexualidade e em troca ele lê para ela inúmeros livros. Esse relacionamento dura apenas um verão e depois Hanna some sem deixar rastros. Oito anos mais tarde, os dois voltam a se encontrar: ele estudando direito, assistindo a um julgamento e Hanna como ré, sendo acusada de crimes nazistas. A partir de então, começa a ser mostrado como as vidas deles voltam a se cruzar.

As cenas iniciais já mostram o clima estranho que há entre os personagens, pois foi exatamente estranheza que senti em relação a relação deles. Ela, contida e fria, ajuda o menino que está passando mal, levando-o para casa. Nasce a partir de então um relacionamento bastante confuso, no qual o amor parece quase coadjuvante: cada um está interessado no que o outro tem a oferecer e ambos seguem assim, por muitas cenas, que representam bem essa necessidade de um pelo outro. Esse é um dos pontos positivos da obra, pois mostra como o amor não é o fundamental numa relação e como acaba se confundindo com favores. Os desejos de Hanna, que consistem em ouvir as histórias que Michael lê pra ela, parecem meio sem sentido no começo, mas aos poucos vão se tornando concisos e coerentes, até que atingem o seu auge nas cenas finais. A relação conturbada entre eles, na qual ele desiste dos amigos por ela, vai se mostrando poética, embora bastante obscura. Quando digo poético, me refiro ao tom suave e carismático dado à maioria das cenas em que os dois estão juntos; na banheira, Hanna ouve com atenção cada palavra que ele narra enquanto ele se entrega juntamente com ela aos prazeres da leitura para que depois consumem o ato sexual. E as cenas de nudez não acentuam uma pornografia; elas somente acrescentam mais a beleza de cada cena. Para alguns pudicos, esses momentos eróticos do filme podem ser constrangedores, mas eles certamente são fundamentais para que compreendamos bem o relacionamento dos personagens.

Outro ponto muito bem abordado, e talvez o mais interessante de todo o filme, é a capacidade de destruição que a vergonha pode causar numa pessoa. E a sensação pesada que a vergonha alheia causa é tão monstruosa, que uma das cenas mais sutis do filme revelam um sentimento igualmente denso pela personagem de Kate Winslet. A cena a que me refiro é aquela na qual Hanna olha o cardápio e diz que vai querer comer o mesmo que Michael, uma vez que não sabia o que estava escrito. A coragem é oprimida pela vergonha de dizer que não sabe escrever e isso soa bastante gritante às razões de quem assiste o filme, pois imaginamos por alguns instantes que isso não é motivo para se envergonhar. Em contrapartida, é incrivelmente real como isso foi mostrado, porque sabemos que inúmeros quesitos a nosso respeito são sempre escondidos por medo e vergonha.

Dedicarei esse parágrafo à atuação de Kate Winslet, já que tudo que tenho a dizer sobre Ralph Fiennes está no próximo. Após quatro indicações como Melhor Atriz no Papel Principal (Titanic, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Pecados Íntimos e O Leitor) e duas indicações como Melhor Atriz no Papel Secundário (Razão e Sensibilidade e Íris), Winslet finalmente recebeu a tão esperada estatueta. Curiosamente foi indicada como Melhor Atriz embora sua função na trama seja de Atriz Coadjuvante. Mas é inegável que ela faz um belíssimo trabalho nesse filme, independentemente da categoria na qual foi indicada; torci bastante para que ela vencesse o Oscar sem nem ao menos ter assistido a esse filme, pois eu sabia o quão boa estava a atuação da atriz. E não me provei enganado, pelo contrário: estava certíssimo! Desde as primeirs cenas, quando auxilia o menino, até o seu momento final no filme, Winslet nos mostra o porquê de ela ser uma das atrizes jovens mais indicadas ao Oscar. Como no próximo parágrafo falarei algo que pode parecer conflitante, explicarei já: a atuação da atriz é realmente muito boa, mas um pequeno lapso no desenvolvimento da personagem deixa o seu futuro (em relação à personalidade) meio duvidoso.

Quanto aos aspectos gerais do filme, posso dizer que há falhas que o minimizam. Tudo começa em 1958, quando Michael tinha 15 anos, o que é dito no filme; oito anos se passam (chegando portanto a 1966) e ele reencontra Hannah. Nesse período de tempo, o mesmo ator interpreta Michael e partir desse período, o personagem passa a ser interpretado por Ralph Fiennes enquanto Winslet, com efeitos de maquiagem, se mantém como intérprete de Hanna. O problema é que se torna inverossímel quando tentam nos fazer acreditar que em praticamente 10 anos Michael era de um jeito e em outros 10 anos mudou de maneira tão radical. Sem contar que Ralph Fiennes deixa muito a desejar se compararmos sua atuação com a do ator que interpreta o mesmo personagem anos antes. Esse é o momento em que o filme desanda, porque basta o tal ator estar em cena para que se sinta um suave tom de falsidade, que não existia antes no filme. Outro suave defeito é o fato de Hanna ser idêntica quanto à personalidade durante todo o decorrer do filme, como se o tempo não fosse capaz de mudá-la o mínimo possível. Percebemos então que numa parte do filme temos Kate Winslet interpretando Hanna e na outra parte temos a Kate Winslet maquiada interpretando a Hanna, porque certamente a passagem do tempo é indicada pela maquiagem e não por uma modificação nas atitudes. Outro grande problema do filme, que compete arduamente com a ineficiência de Fiennes, é o final duplo do filme: [SPOILER] como se não bastasse a pobre Hanna ter se matado, Michael ainda leva seus pertences à filha de uma judia que Hanna ajudou a torturar; decidiram a partir daí dar um tom mais novelístico e puseram outro final, no qual Michael narra seu romance com Hanna e tudo o que aconteceu [FIM DO SPOILER]. Pra que isso? Porque não simplesmente terminar ali, no momento em que as emoções dos espectadores estão mais aguçadas e os olhos se forçam para conter as lágrimas?

De uma maneira geral, desconsiderando os probleminhas citados acima, o filme é muito bom. Só não digo que o filme é tão bom que os erros se tornam mínimos, porque os erros definitivamente não são mínimos nem o filme é uma obra-prima. Mas ele acerta em muitos pontos, atinge o objetivo, mostra os motivos de sua existência e ainda garantiu o justo Oscar à Kate Winslet. Não há como não recomendá-lo, portanto.

Luís

criado por Luís/Renan    09:16:43 — Arquivado em: Filmes

terça-feira, 14 de abril de 2009

A CORRENTE DO BEM

Pay it Forward, 2000, 115 minutos. Drama.

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O que acontece quando se junta o talento de três atores com Helen Hunt e Kevin Spacey, ambos ganhadores do Oscar, e Halley Joel Osment, indicado ao prêmio? Poderia acabar num encontro infeliz, mas certamente não é o que acontece aqui, porque este é um filme poético em que tudo funciona bem, desde os atores ao roteiro. Spacey interpreta Sr. Simonet, um professor de Estudos Sociais que leciona para a sétima série, ano no qual Trevor ingressou. Como tarefa que deverá ser realziada durante todo o ano, o professor propõe aos alunos que façam algo capaz de mudar o mundo ou pelo menos uma pequena parte do ambiente em que vivem. Trevor cria então uma rede de favores, que começa a se espalhar: começa ajudando uma pessoa e esta tem que repassar esse favor a outras três e assim por diante. Ao mesmo tempo, cresce entre Trevor e Eugene Simonet uma relação mais abrangente que a de professor e aluno, envolvendo inclusive a mãe alcoólatra do garoto, Arlene McKinney, interpretada por Hunt.

Esse filme representa bem a junção dos personagens e as situações de vida nas quais estão inseridos: Trevor é uma criança inteligente e visivelmente caridosa, que se sente frustrado pelo fato de a mãe sempre voltar para o pai, um alcoólatra agressivo; Arlene tem dois empregos para sustentar a si e ao filho, mas devido à pressão que há sobre si acaba se entregando ao álcool, estando sempre a volta de pessoas também alcoólatras; já Eugene é um professor que parece afastado dos meiso sociais, limitando-se à sala de aula, sem expandir os seus horizontes. Com a intenção de melhorar o mundo, segundo a proposta de Simonet, Trevor começa a realização ajudando um morador de um lixão, ajudando-o com alimentos, roupas limpas e dinheiro para tentar um recomeço. Este homem, então, deveria “passar para a frente”, título original do filme (Pay it Forward), auxiliando novas pessoas.

Primeiro eu gostaria de comentar sobre o aspecto real que esse filme abrange, acertando na forma como mostra os personagens e os pensamentos que eles têm. O maior destaque, na minha opinião, é Arlene, principalmente se considerarmos a vida que tem e as maneiras que ela encontra para equilibrá-la: o amor pelo filho é tanto que ela não faz corpo mole em relação ao trabalho, esperando o melhor dele, tanto que às vezes perde o limite, como é bem mostrado numa cena em que discute com Sr. Simonet; em contrapartida, ela mesma destrói o relacionamento com o filho ao tentar fugir de sua realidade e usando para isso as bebidas. Quanto ao outros personagens, são igualmente densos, mas a minha simpatia realmente se focou nela. Sr. Simonet tem uma história que vida que se confunde brilhantemente com a de Trevor, o que provoca um entrosamento bastante específico entre os dois. A interligação entre eles ocorre de maneira bastante simples, porém bastante bonita, principalmente quando analisamos as mudanças comportamentais que ocorrem quando estão uns com os outros; isso é bastante visível no momento em que vemos a opinião de Simonet sobre atrasos e a sua reação diante do atraso de Arlene.

Quanto às interpretações, não há o que questionar. Helen Hunt, vencedora do Oscar dois anos antes, mostra com sabedoria as reações de uma mãe diante de situações complicadas, como drama pessoal e relacionamentos amorosos. Kevin Spacey também dá um show no filme, mostrando com muita eficácia o porquê de ser um ator tão bom, tendo inclusive ganhado os dois Oscar para os quais foi indicado. Não se pode negar que Haley Joel Osment é um dos melhores atores mirins da metade final da década de 90; fez filmes de sucesso, provou-se um excelente ator e concorreu ao Oscar, embora, diferentemente dos outros atores, não tenha ganhado. Isso, no entanto, não minimiza a sua participação no filme, que é deveras fundamental para que o resultado final seja como é. Cada ator compõe muito bem seu personagem, o que resulta em interpretações sem exageros e na medida certa para envolver o espectador no que é narrado, sem que haja bocejos ou descrenças a respeito do que é visto. O roteiro conduz muito bem as passagens do filme e é extremamente eficiente ao exibir os personagens e situações como faz, pois permite que quem assista ao filme viva com os atores as emoções mostradas. Acredito que muito do filme se deva ao roteiro, pois é irrepreensível a abordagem do tema quando vemos tudo no filme: as brigas, os desentendimentos, as reconciliações, as decepções e as retomadas. Quanto a essas (decepções e retomadas), torna-se muito bem coerente com a situação toda a maneira como exibem a passagem da corrente e como ela chega a pontos inimaginados por Trevor.

A última cena do filme retrata bem o sentimento que o filme todo expressa. A parte mais simbólica do filme é aquela em que representa o resultado obtido quando enfrentamos o nosso próprio medo para provarmos a nós mesmos de que somos capazes de fazer o bem, mesmo já tendo feito muito mais do que qualquer outra pessoa faria. A cena final é um pouco exagerada, mas certamente não interfere no filme nem no resultado final, inegavelmente satisfatório. Aviso para os chorões: uma das últimas cenas, embora bastante curta, é bem emocionante e tocante, podendo levar às lágrimas. Como isso não causa mal algum, choremos, então, ao assistir essa obra!

Luís

criado por Luís/Renan    02:55:29 — Arquivado em: Filmes

domingo, 12 de abril de 2009

A CASA DO LAGO

Clique aqui para ver o trailer original do filme (com legendas).

The Lake House, 2006, 105 minutos. Romance.

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Quando vejo que Sandra Bullock é atriz principal de um filme já sinto um suave desconforto e também uma pequena ponta de felicidade. O desconforto se deve ao fato de eu pensar que ela é uma atriz talentosa quase sempre mal aproveitada nas mãos de diretores medíocres e estrelando obras  cujo roteiro é apenas mais uma cópia de inúmeros outros existentes e que definitivamente não acrescentam nada à vida de quem gasta uma hora e meia em frente a uma TV assistindo ao filme; paradoxamente, a alegria é baseada nas características desses filmes e na própria atriz, que parece ter sido feita para filmes e personagens como os que ela interpreta. Infelizmente, ela interpreta bem as mocinhas insossas do cinema. O pôster me deixou levemente desconfortável: somado a Sandra Bullock, Keanu Reeves também faz parte do elenco. Particularmente, eu o acho um ator bastante inexpressivo e não conheço grandes filmes nos quais a interpretação dele seja realmente marcante. Há outra questão interessante a respeito desse filme: ele marca o reencontro da atriz com o ator, após 12 anos desde o sucesso Velocidade Máxima, absurdamente exibido na Sessão da Tarde. 

Kate é uma médica que acaba de sair da casa em que morava, que ficava num lago, para ir morar num apartamento; ao sair, deixa uma carta na caixa de correio, informando ao próximo morador da casa sobre algumas pequenas coisas, como marcas de patas na ponte que leva à casa e sobre um possível erro nas próximas correspondências dela, que podem acabar sendo enviadas à casa do lago. Alex, um arquiteto, pega a carta de Kate e a responde, falando sobre pequenas incoerências por parte dela, como as marcas de patas, que não existem. Ela percebe então a data nas carta: ele vive dois anos antes que ela, no ano de 2004. Pensando tratar-se de uma brincadeira, os dois insistem nas cartas e percebem que realmente há um lapso de tempo que os separa. Acabam se apaixonando um pelo outro.

Vamos a uma análise do elenco: Sandra Bullock e Keanu Reeves estão extremamente bem nesse filme. Enganei-me ao pensar que ele estragaria o filme com sua inexpressividade; ao contrário, os dois parecem se completar magnificamente na obra. Ela interpreta uma jovem médica, embora já tivesse passado dos 40 quando o filme foi produzido; porém, isso não soa incoerente, já que Sandra Bullock realmente parece jovem e os cortes de cabelo apenas ajudam a realçar isso. Keanu Reeves parece bem à vontade ao lado dela, interpretando Alex com a serenidade e beleza necessárias para compor o seu personagem. Não há exageros nas interpretações desses atores, que praticamente estão presentes em todos os momentos. Acredito que os dois realmente tenham muito afinidade, pois não é fácil encontrar filmes nos quais os personagens parecem tão entrosados como é retratado nesse. Aproveitando que estou falando sobre entrosamento, a trilha sonora do filme influencia muito nas cenas que vemos e isso apenas as torna ainda mais bonitas e carismáticas. Música suaves, assim como muitas das cenas, que impressionam pela beleza subjetiva que representam e não exatamente pelo que se espera que seja mostrado.

Quanto ao roteiro, eu fiquei bastante impressionado com a forma com a qual tudo é desenvolvido. Imaginei inúmeros furos e trechos sem explicações, mas se prestarmos bastante atenção, veremos que muito do que está ali é explicado durante as cenas mais simples. Eu gosto de filmes que mostram esses lapsos de tempo e esse representa muito bem a situação dos personagens. Como se não bastasse, há ainda um elemento interessante para acentuar o relacionamento entre Kate e Alex: o livro Persuasão, de Jane Austen, que é o preferido de Kate e que narra uma história sobre a espera, sobre dois personagens que se amam, mas que precisam conviver com a separação e, então, tem uma chance de consumar o amor. Tal qual o relacionamento dos personagens do filme. Eu realmente achei interessante a citação. A única parte que não fica muito bem esclarecida é como as cartas de Kate chegam ao passado, uma vez que elas viajam dois anos até chegar onde Alex está. Mas isso podemos subentender de diversas maneiras, podendo, inclusive, admitir que as cartas apenas serviram para aproximá-los de uma maneira propícia a se consumar; tanto é que, se analisarmos com atenção, perceberemos que tudo o que aconteceu na vida de Kate foi resultado de tudo o que ela mesmo disse a Alex. [SPOILER] Isso fica claro durante muitos trechos do filme, como no início quando ela faz referência sobre as pegadas na ponte, que só viriam a acontecer depois de Alex já estar morando na casa; quando ela comenta sobre a caixa no sótão, a caixa não existia em 2004, sendo posta lá somente quando Alex se muda, deixando-a lá. O acidente no qual Kate presencia um homem morrendo no começo do filme só aconteceu porque dois anos antes Alex sabia que ela estaria naquele lugar [FIM DO SPOILER]. Dessa forma, as linhas vão se unindo, tecendo de maneira extremamente lógica a situação dos dois. Quando digo “lógica”, não me refiro aos dois anos que separam os dois, mas sim à maneira como tudo se conecta.

Acho que há apenas uma coisa um pouco frustrante no filme. Em algumas cenas, o diretor opta por mostrar os personagens juntos, embora sem contato, como nas vezes em que eles estão na mesma praça conversando através de cartas e quando estão num mesmo ambiente, ainda que saibamos que eles não se encontram efetivamente. Isso quebra um pouco da emoção do final do filme, quando o futuro de Alex se junta com o presente de Kate e os dois finalmente podem ficar juntos. Isso, no entanto, não é um grande problema, até porque nós sabemos como será o final no momento em que os dois se descobrem apaixonados.

Não posso deixar de dizer que este é certamente um dos melhores filmes de Sandra Bullock, no qual ela pode mostrar um pouco mais de sua competência como atriz em vez de ficar fazendo macaquices como em Miss Simpatia. A forma como o filme é conduzido, as atuações do casal principal, a trilha sonora, a fotografia, a sutileza presente na maioria das cenas estão perfeitamente cabíveis com o que o filme pretende mostrar, o que resulta numa obra que deveria ser vista por fãs do gênero romance e também por aqueles que se interessam por filmes leves e com uma bonita mensagem. Esperemos que Bullock faça algum filme de verdade que lhe renda uma indicação ao Oscar…

Luís

criado por Luís/Renan    01:00:42 — Arquivado em: Filmes

sexta-feira, 10 de abril de 2009

HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE

Pois bem: chegamos ao final das críticas a respeito dos livros da série Harry Potter. E para isso, a Nivea nos ajudará mais uma vez opinando sobre o que achou do último livro.

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Harry Potter and the Deathly Hallows, 2007, 590 páginas.

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Harry Potter e as relíquias da morte é um livro bem interessante. Em primeiro lugar, dá uma sensação estranha quando se lê, porque é o último livro; mais estranho é ver como tudo se desenrola de um jeito estranho, quando todos estão fora do castelo. Harry tem que sair de casa, e o episódio seria engraçado se a situação não fosse meio caótica. Gui e Fleur se casam e Harry recebe um presente de aniversário especial… Rony, Harry e Hermione têm a amizade e a capacidade testadas; discussões e separações são inevitáveis. Tem um pouco de romance e, óbvio, revelações que certas pessoas nem poderiam imaginar. [SPOILER] As especulações de que Dumbledore voltaria e de que Harry morreria não se tornam exatamente realidade. Depois da tal última batalha, J.K. Rowling fez o favor de matar mais alguns personagens queridos. Resumindo, digamos que o bem prevalece. Talvez você se assuste com o final. Sempre se espera que a frase “alguns anos depois” apareça, mas não que “alguns anos” sejam tantos![FIM DO SPOILER]. Se você estiver lendo o livro pela primeira vez, não leia com a mesma pressa que eu li. Vá com calma, aprecie os detalhes. O fim até que é previsível, mas o desenrolar da história é o que importa.

Nivea

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Ao começar a ler esse livro, é impossível não se sentir tentado a dar umas olhadinhas nas páginas finais ou mesmo querer devorá-lo em apenas um dia a fim de conhecer logo como J.K. Rowling conclui a saga do bruxo mais famoso do mundo. Em contrapartida, dá vontade de lê-lo calmamente, para que cada momento seja absorvido com eficácia e nós possamos prolongar um pouco mais a sutil alegria de lê-lo, uma vez que lido, saberemos que é decididamente o fim. Entre devorá-lo e apreciá-lo, optei pelo segundo e fui lendo parte a parte, com calma, compreendo cada situação exibida. Aos que não leram o livro, atenção: há muitas revelações contidas nos próximos parágrafos.

Não há dúvidas de que esse é o livro mais adulto da série; não me refiro unicamente aos fatores óbvios, como o fato de os personagens estarem literalmente mais velhos. Refiro-me às situações pelas quais eles passam, pelas provações e pelos sentimentos realmente dolorosos postos em frente aos seus olhos. Uma grande amostra do quanto as escolhas deles são significativas, posso citar a opção de Hermione, aluna extremamente fiel e que põe os estudos a frente de tudo, que desiste de Hogwarts para seguir com Harry numa jornada de descobertas e emoções que certamente interfere em cada segundo de suas vidas. Outro exemplo é a desgastante relação entre o trio principal, que resulta num rompimento brusco; estando sozinhos e com um a menos, Harry e Hermione dependem um do outro para seguir em frente e concluir a promessa que Harry fizera a Dumbledore no livro anterior. Certamente, esse é um livro sobre revelações e relações humanas, apesar de todo o mundo mágico no qual os personagens estão inseridos. É perceptível, por exemplo, a angústia de uma mãe que por anos seguiu um caminho duvidoso, mas que não deseja o mesmo para o filho, como é o caso de Narcisa; vemos uma relação intra-específica de afeto, como é o caso de Dobby e do gigante meio-irmão de Hagrid; é mostrada para nós a resistência daqueles que ficaram e resolveram combater Lord Voldemort de outra maneira e também a relação de fidelidade entre todos aqueles que partilhavam do companheirismo dentro do castelo de Hogwarts.

Acredito que esta seja a terceira vez durante a série que os personagens e, consequentemente os leitores, são postos diantes da morte em si. Embora saibamos que os pais de Harry tenham sucumbido à ira de Lord Voldemort, isso é um fato passado que aconteceu antes de a série se iniciar, cronologicamente (dentro da série) em 1980. A primeira morte que testemunhamos e que afeta diretamente os alunos no tempo em que vivem ocorre no quarto livro, com a morte de Cedrico. No ano seguinte, é a vez de Sirius Black se despedir da série. No entanto, no último ano, inúmeros personagens morrem enquanto outros são gravemente feridos; a respeito de alguns, sabemos o que aconteceu, sobre outros temos que imaginar. Dentre os personagens, pode-se destacar alguns de fundamental importância para a trama, como o trio principal, Luna Lovegood, Ninfadora Tonks, Remo Lupin, as famílias Weasley, Malfoy, Lestrange, os professores de Hogwarts. A respeitos dos últimos, não posso deixar de destacar a minha simpatia por McGonagall que representa o estilo de professor que Hogwarts tem perante uma situação não correspondente às expectativas da escola. No final do livro, ela não somente age com indiferença em relação a influência dos Comensais da Morte Aleto e Amico como também executa feitiços que ajudam os outros a se defender do mal que rodeia a escola. Num dos melhores momentos, Miverna diz ao professor Slughorn (antigo diretor da Sonserina) que os sonserinos precisam se decidir de qual lado estão e caso estejam do lado oposto ao lado em que Hogwarts está, então estaria declarada a guerra. Eu particularmente não vejo a hora de ver esse trecho sendo adaptado e Maggie Smith (intérprete de McGonagall) pronunciando o diálogo com o seu tom austero e firme. Torçamos para que a atriz não morra até o fim da série!!

Acredito que o único ponto negativo de todo o livro é o final. Não me refiro ao final revelador, que mostra aos leitores todas as verdades por trás das ações (e posso caracterizá-lo também como final previsível, concordando com a Nivea); refiro-me aos dezenove anos que se passam desde o fim da guerra mostrada. Além de totalmente desnecessário, é meio frustrante ler o que aconteceu com os personagens; se tivesse terminado antes, nós teríamos chegado à conclusão de que tudo tinha acontecido como é mostrado, ou seja, a forma explícita como está no livro é meio cansativo. Isso sem contar na mexicanização dos nomes dos filhos dos personagens, que soa quase absurdo.

Enfim, o livro é muito interessante. Se você chegou aqui sem entender que o meu ponto de vista é totalmente a favor do livro, então escrevi a toa. Basta esperarmos que J.K. Rowling não ceda à pressão e acabe escrevendo mais um livro; segundo ela mesma, esperará dez anos sem escrever, pois assim saberá se é ou não sensato dar continuidade à série. Esperemos que ela seja sábia!

Luís

criado por Luís/Renan    08:22:06 — Arquivado em: Críticas Especiais, Livros

quarta-feira, 8 de abril de 2009

MARIA ANTONIETA

Clique aqui para ver o trailer original (sem legendas).

Maire Antoinette, 2006, 123 minutos. Drama.

Vencedor do Oscar de Melhor Figurino.

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Kirsten Dunst é uma atriz que já passou por várias performances diferentes: já foi vampira, ao lado de Tom Cruise e Brad Pitt; foi uma líder de torcida; viveu em séculos anteriores; suicidou-se, mas certamente é mais conhecida como Mary Jane, a namorada do Homem-Aranha. Em Maria Antonieta, ela vive uma das rainhas mais temperamentais e turbulentas que a França já viu; nessa obra de Sofia Coppola, ganhadora do Oscar pelo roteiro original de Enconstros e Desencontros, a vida de Maria Antonieta é retratada de maneira bastante humana e sensível.

A austríaca Maria Antonieta é mandada para a França para casar-se com Luís Augusto. Chegando lá, a jovem acaba se surpreendendo com os aspectos da corte, embora nem sempre positivamente. A vida na França traz inúmeros despropósitos que passam a entediar a jovem: o marido parece interessar-se apenas por chaves e cadeados, as fofocas parecem não acabar e personagens vulgares estão inseridos no ambiente cortês. Como fuga, a jovem que logo se torna rainha, cria um mundo à parte, no qual vive suas fantasias e se sente feliz, parecendo alheia ao que acontece no país. Basicamente, é esse o resumo do filme. Kirsten Dunst que desde pequena já trabalha com filmes de época faz um ótimo trabalho caracterizando a rainha. Primeiramente, ela parece confusa com todos os tratamentos que recebe, ficando depois entretida com tudo. No entanto, conforme o tempo passa, Maria Antonieta percebe o quão monótona é a vida na corte e precisa mudar as coisas, transformá-las para que fiquem do seu jeito.

A primeira amostra disso é quando ela bate palmas parabenizando os oradores durante um recital; a ela é avisado que não se permite aplausos, mas mesmo assim ela insiste e todos passam a acompanhá-la, evidenciando que ela acaba de quebrar uma barreira. Luís Augusto, o seu marido, demonstra total falta de interesse por ela enquanto a mãe da jovem faz pressão, reforçando que ela somente terá elos com a família real francesa quando gerar uma criança que seja do mesmo sangue; paralelamente, o conflito torna-se mais pesado pois se espera que ela, esposa do homem que sucederá o rei, dê a luz a uma criança logo, o que acaba não acontecendo. Já rainha, ganha o Petit Trianon, uma espécie de corte particular, onde fica durante as horas vagas com os filhos que tem posteriormente com o rei e com as damas de companhia. Chega inclusive a envolver-se com outro homem, o Tenente Fersen e torna-se a Rainha Má, como é dito pela população pobre que nem ao menos tem pão para comer.

É importantíssimo ressaltar que o filme é uma obra artística somente. Não é um retrato histórico da época nem da personalidade de Maria Antonieta; já que tudo é mostrado com muita sutileza e extrema falta de escala, comparando-se o que é mostrado com fatos históricos. Historicamente, a austríaca foi para a França aos 14 anos para casar-se; aos 18 foi rainha, deu a luz a dois filhos, agiu de maneira superior, ignorando certos problemas sociais; reinou por 20 anos até a população invadir o castelo, promover a desordem e acabar condenando o rei e a rainha à morte; então, aos 38 anos, Maria Antonieta foi guilhotinada. Embora sejam fatos, Sofia Coppola optou por mostrar o lado humano da personagem, inserindo num contexto que não lhe traz prazer e expondo o seu lado sensível. É impossível acreditar que haja passagem de tempo no filme conforme mostra a realidade: Kirsten Dunst está igual desde o começo do filme até o final, sem que ao menos percebamos o efeito do tempo; logo fica confuso para quem não conhece muito sobre esse período compreender os diversos fatores que levaram aquilo que é mostrado no final (que não mostra a morte da rainha).

Uma característica interessante do filme é a trilha sonora e a ambientação. Embora tudo ocorra no século XVIII, persebemos a inserção de inúmeros elementos da época atual, como as características de certas pessoas na corte, alguns diálogos entre personagens. Mas a trilha sonora parece fugir do tema “século XVIII”; é tão atual que chega a ser conflitante com as cenas que vemos. O mais incrível disso é que acabam ficam ótimas, como na cena inicial em que mostra Maria Antonieta deitada enquanto toca um rock divertido. A fotografia do filme também é bonita, com destaque para os diversos tons de rosa utilizado, destacando bem a feminilidade existe no filme. Das cenas, acredito que a melhor seja aquela na qual simulam a “Rainha Má”; os pobres reclamam que não há pão para comer e Maria Antonieta diz, com descaso, enquanto toma banho: “Deixe-os comer brioche”.

Eu recomendo o filme, embora tenha me frustrado parcialmente com a obra. Esperava uma visão mais crítica e histórica, nada tão suave quanto é mostrado. Esperava ao menos ver o final de verdade e não um ponto qualquer antes da guilhotina. Outro fator que incomoda um pouco é a lentidão com a qual o filme é narrado e a aparentável falta de objetividade, já que por várias vezes parecemos não entender o que a diretora quer que vejamos. Mas, de uma maneira geral, o filme é bom e vale a pena ser assistido. Se não valer pela aula de história, valerá para ver Kirsten Dunst num papel menos broxante do que Mary Jane.

Luís

criado por Luís/Renan    10:10:20 — Arquivado em: Filmes

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE

Charlie and the Chocolate Factory, 2005, 106 minutos. Aventura.

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Refilmagem do filme de 1971, esse filme é mais um ds que estão na lista dos remakes resultantes da uma possível falta de originalidade dos roteiristas. E também representa bem os filmes que recriam algo que não precisa ser recriado, que é o caso do filme original a década de 70. Essa produção, no entanto, não é ruim e faz jus à obraestrelada por Gene Wilder: o filme é bastante simpático, divertido e cheio de humor negro, o filme conquista o espectador. A obra original, porém, ainda supera esse remake!

A história resume-se basicamente a uma visita que Willy Wonka, um excêntrico fabricante de chocolates, permitirá que 5 pessoas visitem a sua fábrica; para isso, é necessário encontrar o bilhete dourado que está dentro das embalagens do chocolate. Uma vez dentro da fábrica, os jovens passam por experiências interessantes em busca do prêmio final que Wonka promete que dará a apenas um deles. O filme mostra bem a situação na qual Charlie, o personagem cujo nome está presente no título original, está inserido: jovens cheios de si, cuja soberba domina todos os atos deles e também age sobre os demais, influenciando positiva ou negativamente. Há Violet, uma garota que masca sem parar um chiclete pelos últimos três meses, a fim de ser recordista; Augustus, uma criança obesa que não pára de comer; Veruca, menina mimada acostumada a ter tudo o que quer; Mike Teave, um garoto emburrado que critica tudo ao seu redor e é sabichão. Charlie, ao contrário de todos, é humilde e representa uma classe social menos favorecida, o que fica evidente nas passagens em que sua família é mostrada. Aliás, desde o princípio nós já simpatizamos com o garotinho e com sua família, o que nos faz querer que ele se dê bem no final.

O auge do filme certamente é o humor negro, mas sobre este comentarei depois. O tom psicocodélico dado ao filme é bastante interessante, com destaque para praticamente todas as cenas em que a fábrica aparece em tomadas internas. O filme é todo cheio de cores, muito azul, verde, vermelho… Isso além de representar bem as guloseimas que a fábrica produz ainda instiga a fome em quem assiste (eu mesmo fiquei comendo durante metade do filme). Mas fantasticamente o que há de magnífico no filme é a caracterização de Wonka e todo o humor duvidoso que existe em suas falas. Tudo envolve uma maneira fria porém maliciosa de se referir a tudo, seja às crianças ou aos umpas lumpas. Uma de suas frases, uma das melhores do filme, é mais ou menos assim:

[Gordinho morto de fome, referindo-se à uma "floresta" feita de doces] - Isso tudo é de comer?
[Willy Wonka, sorridente] - Tudo nessa sala é comestível, até mesmo eu. Mas a sociedade não vê com bons olhos os atos de canibalismo…

Jhonny Depp certamente se destaca no filme, embora eu prefira o carisma do filme original, onde tudo parece estar bem dosado: tantos os momentos de suspense quanto os de humor estão bem equilibrados. No remake, há bastante humor, mas não há o modo desafiador como certos momentos são mostrados no original, por exemplo, no momento em que eles percorrem o rio de chocolate. Alguns elementos acrescentados ao remake tornaram-o um pouco mais “humano” que o original, já que no primeiro Willy Wonka não tinha família, ou pelo menos, ela não era mostrada, seja como figuração ou como elemento fundamental para que Wonka se tornasse o que se tornou. O filme é um bom entretenimento, embora eu ainda prefira o original. Mas há nesse filme um conjunto interessante de fatores que contribuem para a boa qualidade num filme; há também lições de morais bastante verdadeiras. Assistam-no.

Luís

criado por Luís/Renan    19:30:53 — Arquivado em: Filmes
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