Literatura e Cinema

“Sem correr no corredor, Nancy” - Freddy Krueger, em A Hora do Pesadelo.

terça-feira, 14 de abril de 2009

A CORRENTE DO BEM

Pay it Forward, 2000, 115 minutos. Drama.

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O que acontece quando se junta o talento de três atores com Helen Hunt e Kevin Spacey, ambos ganhadores do Oscar, e Halley Joel Osment, indicado ao prêmio? Poderia acabar num encontro infeliz, mas certamente não é o que acontece aqui, porque este é um filme poético em que tudo funciona bem, desde os atores ao roteiro. Spacey interpreta Sr. Simonet, um professor de Estudos Sociais que leciona para a sétima série, ano no qual Trevor ingressou. Como tarefa que deverá ser realziada durante todo o ano, o professor propõe aos alunos que façam algo capaz de mudar o mundo ou pelo menos uma pequena parte do ambiente em que vivem. Trevor cria então uma rede de favores, que começa a se espalhar: começa ajudando uma pessoa e esta tem que repassar esse favor a outras três e assim por diante. Ao mesmo tempo, cresce entre Trevor e Eugene Simonet uma relação mais abrangente que a de professor e aluno, envolvendo inclusive a mãe alcoólatra do garoto, Arlene McKinney, interpretada por Hunt.

Esse filme representa bem a junção dos personagens e as situações de vida nas quais estão inseridos: Trevor é uma criança inteligente e visivelmente caridosa, que se sente frustrado pelo fato de a mãe sempre voltar para o pai, um alcoólatra agressivo; Arlene tem dois empregos para sustentar a si e ao filho, mas devido à pressão que há sobre si acaba se entregando ao álcool, estando sempre a volta de pessoas também alcoólatras; já Eugene é um professor que parece afastado dos meiso sociais, limitando-se à sala de aula, sem expandir os seus horizontes. Com a intenção de melhorar o mundo, segundo a proposta de Simonet, Trevor começa a realização ajudando um morador de um lixão, ajudando-o com alimentos, roupas limpas e dinheiro para tentar um recomeço. Este homem, então, deveria “passar para a frente”, título original do filme (Pay it Forward), auxiliando novas pessoas.

Primeiro eu gostaria de comentar sobre o aspecto real que esse filme abrange, acertando na forma como mostra os personagens e os pensamentos que eles têm. O maior destaque, na minha opinião, é Arlene, principalmente se considerarmos a vida que tem e as maneiras que ela encontra para equilibrá-la: o amor pelo filho é tanto que ela não faz corpo mole em relação ao trabalho, esperando o melhor dele, tanto que às vezes perde o limite, como é bem mostrado numa cena em que discute com Sr. Simonet; em contrapartida, ela mesma destrói o relacionamento com o filho ao tentar fugir de sua realidade e usando para isso as bebidas. Quanto ao outros personagens, são igualmente densos, mas a minha simpatia realmente se focou nela. Sr. Simonet tem uma história que vida que se confunde brilhantemente com a de Trevor, o que provoca um entrosamento bastante específico entre os dois. A interligação entre eles ocorre de maneira bastante simples, porém bastante bonita, principalmente quando analisamos as mudanças comportamentais que ocorrem quando estão uns com os outros; isso é bastante visível no momento em que vemos a opinião de Simonet sobre atrasos e a sua reação diante do atraso de Arlene.

Quanto às interpretações, não há o que questionar. Helen Hunt, vencedora do Oscar dois anos antes, mostra com sabedoria as reações de uma mãe diante de situações complicadas, como drama pessoal e relacionamentos amorosos. Kevin Spacey também dá um show no filme, mostrando com muita eficácia o porquê de ser um ator tão bom, tendo inclusive ganhado os dois Oscar para os quais foi indicado. Não se pode negar que Haley Joel Osment é um dos melhores atores mirins da metade final da década de 90; fez filmes de sucesso, provou-se um excelente ator e concorreu ao Oscar, embora, diferentemente dos outros atores, não tenha ganhado. Isso, no entanto, não minimiza a sua participação no filme, que é deveras fundamental para que o resultado final seja como é. Cada ator compõe muito bem seu personagem, o que resulta em interpretações sem exageros e na medida certa para envolver o espectador no que é narrado, sem que haja bocejos ou descrenças a respeito do que é visto. O roteiro conduz muito bem as passagens do filme e é extremamente eficiente ao exibir os personagens e situações como faz, pois permite que quem assista ao filme viva com os atores as emoções mostradas. Acredito que muito do filme se deva ao roteiro, pois é irrepreensível a abordagem do tema quando vemos tudo no filme: as brigas, os desentendimentos, as reconciliações, as decepções e as retomadas. Quanto a essas (decepções e retomadas), torna-se muito bem coerente com a situação toda a maneira como exibem a passagem da corrente e como ela chega a pontos inimaginados por Trevor.

A última cena do filme retrata bem o sentimento que o filme todo expressa. A parte mais simbólica do filme é aquela em que representa o resultado obtido quando enfrentamos o nosso próprio medo para provarmos a nós mesmos de que somos capazes de fazer o bem, mesmo já tendo feito muito mais do que qualquer outra pessoa faria. A cena final é um pouco exagerada, mas certamente não interfere no filme nem no resultado final, inegavelmente satisfatório. Aviso para os chorões: uma das últimas cenas, embora bastante curta, é bem emocionante e tocante, podendo levar às lágrimas. Como isso não causa mal algum, choremos, então, ao assistir essa obra!

Luís

criado por Luís/Renan    02:55:29 — Arquivado em: Filmes

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