domingo, 31 de maio de 2009
BRINQUEDO ASSASSINO
Child’s Play, 1988, 88 minutos. Terror.
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Não raramente, quando eu ouço comentários a respeito desse filme, vejo as pessoas torcendo o nariz e o reprovando sob a justificativa de que é um filme sem noção, bastante ultrapassado, etc. Obviamente se percebe que quem diz isso são pessoas que nunca assistiram ao filme e que somente tem por base as recentes e ridículas sequências que foram dadas à obra original, de 21 anos atrás.
O filme narra uma perseguição policial que termina com o assassino mortalmente ferido e que, antes de morrer, passa sua alma para o corpo de um boneco qualquer, já que estão dentro de uma loja. Como o Boneco Bonzinho é a sensação do momento, o pequeno Andy Barclay quer um. Por azar, a mãe acaba dando ao menino o boneco que ela comprou mais barato de um camelô e que é justamente aquele em cujo corpo está a alma do serial killer. Após morrer a melhor amiga da mãe de Andy, a polícia, incluindo o policial que matou Charles Lee Ray, o Chucky, começa uma investigação e Andy diz que Chucky não é somente um boneco, mas ninguém acredita nele até que mais mortes misteriosas acontecem.
Precisamos considerar diversos aspectos e também situar o filme na época à qual pertence para dizermos se é bom ou não, e não somente ir julgando por causa das atitudes extravagantes de produtores que querem a qualquer preço uma continuação, mesmo que esta não apresente qualidade. Quanto ao roteiro do filme, é realmente bom, já que a história é conduzida de maneira satisfatória, sem deixar pontas soltas nem exagerar em informações, que às vezes não são necessárias, nem deixar de mostrá-las. O espectador, como aconteceu comigo, pode se perder um pouco na linha cronológica e acreditar o tempo passado desde a criança ter ganhado o brinquedo até o final do filme é muito tempo, mas na verdade o tempo passado fica bastante claro pelas falas dos personagens. Os atores são bons também e há cenas bem interessantes, ainda que algumas sejam bem estranhas. Em relação às legais, há a cena em que a mãe, demonstrando desconfiança, se senta diante do brinquedo e tenta conversar com ele, logo chegando a conclusão de que havia um tom cômico naquilo, e quase crê que o filho estivesse mesmo fora de si; pouco depois, descobre que o boneco tem funcionado sem pilhas; é irreprensível a cena, com o tom de pavor no rosto da atriz e o ambiente enclausurado no qual ela se encontra. O constraste entre o primeiro momento, aquele em que ela pensa que tudo é loucura, e o segundo, em que a loucura parece estar ainda mais acentuada, é fantástico. Se no primeiro ela riu, no segundo seus olhos quase gritam de pavor. Para completar a cena, ela segura o boneco e confirma a ausência de pilhas ao mesmo tempo em que a cabeça do boneco gira 180° e ele diz uma das frases programadas (“Oi, eu sou o Chucky. Quer brincar?”). Como se a cena já não estivesse suficientemente boa, a mulher acende a laleira e ameaça jogar o boneco no fogo se ele não falar com ela: então, temos a primeira amostra do quão vivo o brinquedo está!
Se considerarmos o ano em que foi produzido, 1988, o resultado certamente é bom, pois há muitos filmes atuais que utilizam efeitos bastante ruins e nem chegam à metade do que Brinquedo Assassino é. Como curiosidade, é realmente um boneco utilizado em cena, sendo que fios o seguram e o locomovem, como uma marionete. Somente num cena um anão interpretou o boneco, pois não havia como filmar se fosse de outra maneira. Quantos aos aspectos técnicos, não há como reprender os criadores, pois o tempo todo cremos que é mesmo um boneco o causador de todas as mortes; as expressões no rosto do boneco são absurdamente realistas, muito bem trabalhadas. O único problema quanto a caracterização do boneco se encontra no fato de a boca não se mexer conforme a voz em muitas vez, o que causa um efeito estranho. Devemos também ressaltar que há um homem preso ao corpo de um boneco, portanto, a força do brinquedo corresponde a de um homem adulto, o que permite ao boneco lutar com as suas vítimas e apresentar força semelhante a delas. Então, podemos compreender o porquê da dificuldade dos personagens de lutar contra Chucky. Há, no entanto, um pequeno defeito nas filmagens: percebe-se claramente que os atores estão fingindo receber a força do boneco, pois são bastante falsas as lutas em alguns momentos, mas não é nada que interfere drasticamente no resultado final.
Outra curiosidade a respeito do filme é a composição do nome do serial killer: Charles Lee Ray. O primeiro, Charles Manson, o segundo Lee Harvey Oswald e o terceiro James Earl Ray; os três são famosos assassinos da história americana. Existem algumas falhas no filme, mas está muito longe de ser o que A Noiva e O Filho de Chucky se tornaram; aqui não há humor negro nem tons cômicos durante toda a projeção. O filme segue uma linha séria do princípio ao fim, sem se perder em divagações e coisas que acrescentam estética à quase hora e meia de duração. No final, ficam algumas perguntinhas na cabeça, como “haverá continuação?” e “que porra de escola é essa da qual a criança simplesmente sai sem que ninguém veja?” (em relação a uma cena em que Andy sai “escondido” com o seu boneco). Não creio que a tradução do filme seja adequada, é tão óbvia que estraga parte da graça. O título original nos revela um “brinquedo de criança”; o título também não é bom o suficiente, mas pelo menos nçao tem um subtítulo explicativo. Se ouvirem alguém falando mal do filme e se sentirem tentados a não assiti-lo por causa disso, ignorem a sensação e confiram, porque o filme, ainda que não seja nenhuma obra-prima, também não é indigno de ser visto, como a 4ª continuação é! Pois bem… assistam-no, pela menos uma vez. E quanto à pergunta “haverá continuação?”: sim, infelizmente houve.
Luís

criado por Luís/Renan
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