Literatura e Cinema

“Sem correr no corredor, Nancy” - Freddy Krueger, em A Hora do Pesadelo.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

ELEFANTE

Elephant, 2003, 81 minutos. Drama.

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Esse filme, dirigido pelo estadunidense Gus Van Sant, responsável pelas obras indicadas aos prêmios da Academia Gênio Indomável e Milk - A Voz da Igualdade, é um dos melhores trabalhos que vi ultimamente. Não o vejo como uma obra-prima, mas é certamente um filme que deveria ser visto, pois é, de uma maneira geral, bastante curioso e mostra tudo de uma maneira bem específica, fazendo alusões interessantes e criando clima durante quase toda a projeção.

Elefante narra a história do massacre de Columbine, escola na qual dois jovens estudantes entraram e, fazendo uso de armas - duas cacaçdeiras, uma semi-automática e um rifle 9mm - , começaram a atirar em diversas pessoas, fossem elas professoras ou alunas. O que torna esse filme realmente mais prazeroso de se assistir é que ele não é uma amostra grátis da chacina; esta, aliás, é quase um evento coadjuvante, porque a maioria dos eventos narrados são momentos anteriores ao tiroteio. Pouco a pouco, Gus Van Sant vai construindo com cuidado seus personagens, nos permitindo ver as coisas pelas quais eles passam, a forma como interagem uns com os outros, para então mostrar como aquela manhã terminou.

Na minha opinião, dois dos fatores que mais promoveram o sucesso do filme é a opção do diretor por mostrar vários momentos por perspectivas diferentes e a maneira como conduz a câmera quando há transição de cenários. Quanto ao primeiro fator, ao longo do filme vemos várias vezes uma determinada cena no corredor, porém em cada vemos algo de diferente, uma motivação diferente para o personagem estar ali. Sobre o segundo fator, há inúmeras tomadas em que o personagem anda, seja da quadra para o vestiário, do pátio para o refeitório, e a câmera o acompanha; por vezes, não há diálogos, há somente uma caminhada, que parece sempre ser longa. Acredito que isso seja uma grande alusão ao fato de que todos tiveram que, de alguma forma, enfrentar muito para chegar onde estão; a teoria fica ainda mais clara se pensarmos na atitude dos matadores e as considerarmos de acordo com suas características e situações subentendidas ao longo do filme, como o fato de serem meio rejeitados, terem tendência à violência, etc. A composição dos personagens também é curiosa, já que não há um central; todos são igualmente importantes, ainda que uns apareçam mais e outros menos. Há divisões durante o filme, identificamos pelo nome o personagem sobre o qual o filme falará nos minutos seguintes, construindo assim uma espécie de rotina escolar, a qual esses estudantes mostrados estão submetidos.

Em meio a essa rotina, existem pequenas amostras dos motivos possíveis pelos quais Alex e Eric optaram pela chacina; esses são dois alunos que certamente se destacam dos outros durante as cenas. Os contrastes mostrados são impactantes: enquanto Alex toca Für Elise, o amigo, Eric, jogado na cama, joga um game de tiros; pouco depois, irritado, Alex desiste de tocar, fazendo que sua última nota musical soasse estrondosa. E, pouco antes de se dirigirem para a escola, preocupam-se com um beijo, ato de carinho, quando pretendem atirar em várias pessoas impiedosamente. Os alvos deles são também enfatizados durante o filme: os atletas, grupo do qual Alex e Eric não fazem parte, mostrado pela figura do popular que Britanny, Carrie e Nicole encaram. A maneira como a escola é mostrada acrescenta densidade às cenas; os corredores não são claros, como normalmente são nas escolas. Eles acabam dando uma sensação de vazio bem grande, como se, somados às longas caminhadas, não quisessem dizer nada e fossem simplesmente mais um elemento em cena, mas percebemos que toda esse cenário é significativo e está relacionado à forma como os personagens se sentem: um tem o pai bêbado, o outro tem problemas familiares, as garotas se submetem à indução do vômito para se sentir melhor, uma é rejeitada, etc.

Eu recomendo esse filme! Como eu disse anteriormente, é um dos recentes bons filmes a que assisti. Durante uma hora e vinte minutos, o espectador vê cenas bastante complexas e outros bastante simples, embora a complexidade por trás seja a mesma. Alguns podem não entender o porquê do nome do filme; eu mesmo não encontrei nada explícito na obra que remeta ao curioso título. Peço, então, permissão ao Ivan para fazer das palavras dele as minhas e explicar o porquê: é uma alusão ao “elefante na loja de cristais”, que é um fato inesperado e, devido às proporções e características, pode ser deveras devastador, tal como a vingança de Alex e Eric. Esta é uma obra pela qual o espectador exigente deve procurar, uma vez que certamente o deixará satisfeito e com uma sutil sensação de peso ao final, quando há enfoque em um dos assassinos e este, de maneira bastante infantil, provoca suspense psicológico antes de dar o último tiro. Vale a pena conferir.

Luís

criado por Luís/Renan    02:16:55 — Arquivado em: Filmes

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