Literatura e Cinema

“Sem correr no corredor, Nancy” - Freddy Krueger, em A Hora do Pesadelo.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

RÉQUIEM PARA UM SONHO

Requiem for a dream, 2000, 102 minutos. Drama.

Indicado ao Academy Awards na categoria Melhor Atriz (Ellen Burstyn).

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O primeiro conselho que quero dar é: se virem esse filme nas prateleiras da locadora e acharem o título estranho, não lhe dêem as costas, pois fazê-lo seria abrir mão de assistir a uma obra que choca a quem o vê! O choque a que me refiro é extremamente positivo, principalmente se considerarmos a forma crua como o tema desse filme é abordado.

Como o próprio nome do filme sugere, o tema central são os sonhos - aqui sinônimos para ideais. Harry Golfarb e Marion Silver são um casal apaixonado, que sonha em ter uma loja própria e ficar bem; no entanto, devido ao vício dos dois em heroína, inúmeros problemas surge entre eles e Harry constantemente penhora a televisão da mãe, sem que essa consista. Sara Goldfarb, a mãe, por sua vez, gasta horas em frente à TV assistindo o seu programa preferido; ao ser convivada para participar do programa, ela começa a imaginar-se contando sobre a sua vida e a do filho, de quem tem tanto orgulho, mas deseja usar o vestido vermelho, o seu preferido, que já não entra mais devido ao ganho de massa desde a última vez em que o usou. Decidida a usá-lo, ela submete-se a uma dieta a base de pílulas, o que por fim a torna uma viciada em medicamentos para emagrecer. O filme narra paralelamente os eventos em torno desses três personagens e foca a maneira como cada um reage à sua necessidade, adentrando com considerável desespero num mundo que não conhece.

As características do filme já mostram a que tipo de viagem presenciaremos: as imagens são mostradas muitas vezes com rapidez, extremamente velozes, outras tantas vezes desconexas, expondo pupilas dilatando, holofotes, dinheiros, heroína, mãos tremendo. Portanto, nos primeiros minutos já sabemos que ao assistir a Réquiem Para Um Sonho estaremos prestes a ver uma narração frenética, na qual vários temas serão mostrados de maneira efusiva e dramática. Os momentos mostrados em split-screen realçam ainda mais a amplitude da cena, já que o mesmo incidente é visto por diferentes ângulos, às vezes, por diferentes perspectivas, como na cena inicial em que Harry rouba a TV da mãe, que está trancada; de tal maneira, podemos avaliar o filme todo como uma grande tela dividida: ainda que os problemas e vícios que os personagens tem sejam diferentes, todos estão envolvidos da mesma maneira no conflito interno ao qual estão submetidos e cabe ao espectador analisar todas essas nuances de cada um e compreender o porquê de cada ação deles. Na minha opinião, o roteiro aborda muito bem o desapego que cada um tem para consigo mesmo, ainda que crêem fazer sempre o bem, e os motivos particulares para insistirem em continuar, mesmo que não haja motivo racional para isso. O roteiro do filme sucede plenamente ao nos mostrar Harry, Marion e Sara principalmente por dentro e não por fora - assim, nós conhecemos o íntimo deles, seus desejos e o jeito simplório como transformam suas atitudes em subterfúgios para justificar a caminhada até os seus sonhos.

Para mim, o grande destaque do filme é Ellen Burstyn, que conduz sua personagem de maneira irreprensível e sem sombras de dúvida merecia o Oscar ao qual ela foi indicada, que lhe foi tomado das mãos por Julia Roberts, cuja interpretação em Erin Brockovich, na minha opinião, não supera a de Burtyns por esse filme! A atriz mostra absurda expressividade durante as cenas em que aparece e ainda faz com que qualquer coisa ao seu redor se torne um personagem tão importante quanto ela. À medida que começa a ingerir mais e mais comprimidos, o que passa a afetar sua capacidade de discernimento, começa a temer a geladeira de tal forma que a vê atentando contra a sua pessoa; ao mesmo tempo, sua obsessão pelo vestido vermelho, aquele de que ela tanto gosta, parece bobagem no começo, mas depois percebemos que seus sentimentos são tão profundos que ela encontrou no vestido uma maneira de apegar-se às lembranças e ao que ela sente em relação ao filho e ao marido, o que é mostrado numa belíssima cena em que Sara e Harry conversam na mesa da cozinha, quando ele descobre as pílulas que foram receitadas à mãe. Outra grande oportunidade dada ao espectador é ver a personagem de Burstyn conforme o seu físico e o seu mental- se antes o vestido não lhe cabia no corpo e ela era sã, torna-se tão magra que o vestido parece murcho com ela dentro dele e ainda vemos, através da perspectiva de Sara, o porquê de ficar tão aflita por estar perto da geladeira. A visão de sua personagem delirante é uma imagem que insiste em permanecer na cabeça de quem assiste a essa obra; ainda hoje, alguns dias após ver o filme, me recordo bem de uma das cenas finais, quando todos os personagens encaminham-se para o grand finale e, sem sombras de dúvida, estão por um triz, Sara delira enquanto diz incessantemente que não podem impedi-la de ir ao programa ao qual ela foi convidada; então é possível concluir - caso se saiba as indicadas e a vencedora ao 73º Academy Awards  - que o prêmio deveria ter sido entregue a magnífica interpretação de Ellen Burstyn.

Não acompanho a carreira de Jared Leto, intérprete de Harry, mas é possível perceber que o ator se empenhou para a composição do personagem, tal qual o fez Jennifer Connely. Esta - que no ano seguinte seria indicada ao Oscar como Melhor Atriz Coadjuvante por Uma Mente Brilhante - está muito bem nesse filme e temos a oportunidade de vê-la suja, moralmente falando: tão apegada ao dinheiro, que sua cena final choca quem vê o filme por causa da crueldade como é mostrada; torna-se ainda mais agressiva se pensarmos no porquê daquilo. Marlon Wayans, uma das “branquelas”, está presente no filme, mas em momento algum o estraga. Como estou acostumado a vê-lo em filmes que não tem densidade nenhuma, quando o vi aqui pensei logo que destruiria as cenas das quais participassem, porém ele não o faz e sua participação é estável durante todo o filme.

Este certamente não é um filme para se assistir esperando dar risadas - talvez uma única cena provoque o riso. Réquiem Para Um Sonho é uma obra complexa, que narra um história aparentemente simples, mas que se enrola complicadamente, transformado-se num intrincado arame farpado. Não há outra maneira de conduzir quem lê essa crítica a vê-lo senão dizendo: este é um filme que todo apreciador de ótimos dramas deve ver! Não posso terminar sem dizer que a trilha sonora adere perfeitamente a cada grande cena, nos convidando a imaginar todos os tipos de desgraças para os personagens; a cada nova cena, uma tragédia diferente passa pela nossa cabeça enquanto aquele som simpático - réquiem, para quem não sabe, é aquela música típica de velório - toma conta da cena, embalando os personagens num ritmo de desenfreada desarmonia. Minha sugestão, provinda de um comentário do Ivan, a quem devo agredecer por mostrar-me o filme, é que atentem para os momentos finais, quando cada personagem torna para si mesmo e, em posse daquilo que almejavam desde o início, procura conforto. Inegavelmente, um filme fantástico!

Luís

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Tenho duas descrições para esse filme: Perturbador e Excelente. Pode-se dizer que o tema central são as drogas envolvendo a vida de quatro pessoas interligadas. Sara Goldfard (Ellen burstyn) que é mãe de Harry (Jared Leto) que é namorado de Marion (Jennifer connelly) e amigo de Tyrone (Marlon Wayans). É um dos melhores filmes que já vi, pois não consegui achar pontos fracos nele. As atuações dos quatro são impecáveis, as cenas são bem feitas, o uso da música é ótimo, e as alucinações (nessas temos que focalizar as da Sr. Goldfarb) são perfeitas.

O filme nos seus ²/3 se revela um filme bom, mas é na parte final que tudo melhora exponencialmente, é nessa parte em que todos estão meio ferrados…Dois estão no hospital, outro está preso e a outra, está…hmmm…você verá. Quando o diretor mistura todas as cenas, com aquele “Consegue me ver? Consegue me ouvir? Está aprovado para o trabalho” tudo fica muito bom, quase hipnótico, fato esse que ocorre com aquele “Nós temos uma vencedora, Nós temos uma vencedora…”

Não há como negar que Ellen Burstyn é a melhor atriz ali. O Luis me disse que ela perdeu o Oscar para Julia Roberts..não vi seu filme, mas ela tem que estar muito bem para alcançar a Sr Goldfarb. Nela vemos uma senhora pacata que assiste seu programa de TV comendo doces (achei muito bonita a cena em que ela come os doces, quase com uma devoção) e que recebe uma ligação dizendo que ela foi escolhida para participar de um programa de TV. Ali vemos todo o lado psicológico. Claramente este é o sonho dela, tanto que no final ela diz: Não quero os premios”. E para aparecer na TV ela quer vestir o vestido vermelho que usou na formatura de Harry e para isso, precisa emagrecer. Dentre todas as cenas de alucinações dela a melhor é a que ela e o apresentador saem da TV, além de ser uma cena conturbada, foi bem feita com aquele efeito de televisão.

Recomendaria muito esse filme. Ele é inovador (como nas cenas em que ele “divide” a tela no meio, embora mostrando a mesma cena), é bem feito, tem conteúdo, e é esplendido.

Renan

criado por Luís/Renan    00:56:08 — Arquivado em: Filmes

2 Comentários »

  1. Comentário por rosangela — segunda-feira, 27 de julho de 2009 @ 13:01:48

    Opa valeu a dica .. parece aer bom o filme!!

    Abç

  2. Comentário por O Cara da Locadora — domingo, 2 de agosto de 2009 @ 16:06:06

    Pronto… Missão dada, missão cumprida, rs… Não tenho muito o que dizer do filme além do que escrevi lá e vejo que concordamos bastante com a maioria das coisas… Só sobre a personagem da Connelly, acho que a questão é a droga e a procura de felicidade e não a busca do dinheiro, mas num sei, rs..

    Abraços e mais uma vez obrigado pela dica…

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