quarta-feira, 9 de setembro de 2009
VIDAS SECAS
Graciliano Ramos, 1938, 126 páginas mais 28 páginas de análise (Editora Record).
Pertencente ao Modernismo, faz parte da lista integrada FUVEST/UNICAMPÂ - 2010.
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Antes de mais nada, explicarei como estruturarei a minha análise: primeiro descreverei o assunto abordado nos capÃtulos de maneira geral, sem me aprofundar muito nem ser muito superficial; depois comentarei a minha opinião sobre o livro e a partir daà será como as crÃticas usuais que eu e o Renan fazemos. Nós optamos por nos dividirmos para comentar os livros, logo eu me responsabilizei por Vidas Secas e ele, daqui a uma semana, apresentará O Cortiço, de AluÃzio de Azevedo.
Resumo: Vidas Secas narra a história de cinco personagens, que são Fabiano, Sinhá Vitória, os dois meninos filhos do casal e Baleia, a cachorra. Os cinco, que não têm uma casa própria, atravessam o sertão em busca de um lugar onde possam ficar durante a seca, para não morrer de fome.
Narrador: narrado em terceira pessoa, sendo o narrador onisciente.
Estrutura: dividido em treze capÃtulos que, numa linha cronológica, estão fragmentados; isso quer dizer que o um capÃtulo não é exatamente uma continuação imediata do anterior. Eu não sei se é uma comparação muito boa, mas é como se vários quadros fossem colocados à nossa frente; cabe a nós, portanto, dar o conectivo à história contada (isso fica bastante fácil de compreender quando passamos do terceiro para o quarto capÃtulo).
Importância da obra: relatar os problemas sociais principais que devastam o sertão brasileiro, impondo famÃlias - representadas pelos personagens do livro - a uma vida de subsistência e subserviência. Alguns consideram que o autor tenha querido representar a desolação que afeta todo o paÃs, impedindo um melhor desenvolvimento e fazendo surgir um Brasil-pobre dentro de um Brasil maior, com qualidade de vida superior em outras regiões.
Explicados esses aspectos básicos, vou me ocupar agora de resumir de maneira satisfatórias os capÃtulos:
1 - Mudança: o capÃtulo narra a mudança que a famÃlia faz através do sertão em busca de um lugar pra se estabelecer. Sabemos que caminham há muito tempo por causa das descrições a respeito do cansaço que sentem os personagens. Nesse capÃtulo, já somos apresentados à s muitas caracterÃsticas dos personagens: a rudimentar maneira de Fabiano, a obediência que as crianças têm pelos pais, o companheirismo de Baleia. É revelado que, além dos cinco, havia também o papagaio, que foi morto a fim de alimentar a famÃlia, para que ela também não morresse. Depois de caminhar mais, Baleia encontra preás e os preda, levando-os à famÃlia que depois encontra uma casal aparentemente abandonada, na qual se instala. Surgem, então, os primeiros resquÃcios de esperança.
2 - Fabiano: somos apresentados a uma análise que Fabiano faz de si mesmo, definindo-se não como homem, mas como bicho, completamente apegado à ignorância e cujas principais habilidades estão a de domar os bichos bravos. A famÃlia já está instalada na casa e Fabiano já conheceu o homem que é proprietário daquelas terras; à famÃlia foi concedida a estadia, desde que Fabiano cuidasse dos animais e da fazenda. Somos apresentados à s lembranças de seu Tomás da bolandeira, um homem a quem todos os personagens admiram por causa da habilidade de falar bem e por causa da humildade e sofisticação dele. Fabiano começa a ter esperanças de um dia não será como um bicho, mas sim um homem, assim como seu Tomás da bolandeira; decide conversar com Sinhá Vitória acerca da educação dos filhos, que estão muito curiosos.
3 - Cadeia: Fabiano vai à cidade em busca de alguns mantimentos para que a famÃlia possa se abastecer, como queronese. Receoso, ele acha que todos na cidade querem roubar-lhe o dinheiro e que sempre se aproveitam do fato de ele não saber contar para aumentar valores. Depois de tomar pinga num butequim, ele é convidado por um soldado amarelo - policial - para uma partida de trinta-e-um, a qual acaba perdendo. Indignado, se levanta para sair da mesa e já está a andar na rua, quando o soldado amarelo aparece, mandando o povo se afastar. Alegando que Fabiano não pagou sua dÃvida, ele é levado pra prisão, onde apanha com um facão e acaba passando a noite.
4 - Sinhá Vitória: a esposa da Fabiano enconmtra-se irritada, principalmente por causa da cama de varas que os dois tê; o que ela quer mesmo é uma cama como a de seu Tomás da bolandeira, de lastro de couro. Ocupa-se das tarefas domésticas enquanto o texto retrata suas lembranças de Tomás. Ao se lembrar de que Fabiano lhe dissera que parece um papagaio sobre saltos quando os usa, Sinhá Vitória sentira-se ofendida e ao mesmo tempo relembrara o animal que comeram a fim de sobreviver.
5 - O Menino Mais Novo: o filho mais novo do casal, influenciado pela admiração que tem pelo pai, decide reproduzir os atos dele. Primeiro conta à Baleia o ato heroico do pai; como a cachorra o ignora, ele conta ao irmão, que faz o mesmo. Por sua própria conta, obe num morro e se joga sobre um bode arisco, que sacoleja o garoto e depois o joga contra o chão. O menino mais novo se irrita com o irmão mais velho, que ri, e com Baleia, que desaprova suas ações. Conclui que um dia os dois hão de admirar por ele ser como o pai.
6 - O Menino Mais Velho: o filho mais velho ouve Sinha Terta, uma vizinha, dizendo a palavra “inferno”. Ocupa-se em descobrir o que a palavra significa e a mãe limita-se a dizer que significa “coisa ruim”. A partir de então, o garoto começa a analisar o que pode ser ruim, pois em sua opinião nada é ruim; não entende como uma palavra tão bonita seja algo tão feio, nem como assimilaram a figura do diabo as coisas do cotidiano.
7 - Inverno: a famÃlia reúne-se em torno do pequeno enquanto conversa por pequenas frases e palavras monossilábicas. Fabiano relata aventuras passadas, mas, como não conhece muitas palavras e usa muitos gestos, a escuridão não permite que todos o compreendam bem. As intromissões dos filhos deixam Fabiano bravo, porque ele acha que estão sendo audaciosos. Enquanto isso, a cheia provoca um alagamento, o que os preocupa, pois, se a cheia persistir, a água chegará até a casa, desabrigando-os.
8 - Festa: Fabiano compra tecidos para que Sinha Terta faça roupas novas pra famÃlia, porque vão a missa na cidade. Desacostumados com trajes mais justos, Fabiano e Sinhá Vitória têm dificuldades para caminhar. A cachorra Baleia segue a famÃlia e quando finalmente chegam à cidade, Fabiano se vê receoso, pois tem muita gente e ele - assim como toda a famÃlia - está acostumado à solidão. Fabiano bebe demais após a missa e começa a procurar pelo soldado amarelo e querendo brigar. Envergonhada, Sinhá Vitória e os meninos se escondem entre as pessoas; Fabiano acaba dormindo na rua, atrás de uma barraca.
9 - Baleia: a cachorra já está para morrer; a pele está coberta de feridas que acumulam mosquitos, os pêlos se distribuem escassamente pelo corpo da cachorra, que mal podiam comer por causa das chagas e inchaços que circundavam a boca. Fabiano decide matá-la, então. Entristecido, pois Baleia é com um membro da famÃlia, Fabiano pega a espingarda e seuge o animal, que, percebendo que algo ruim vai acontecer, tenta se esconder. Por engano, o primeiro tiro acerta a perna da cachorra, que se rasteja sangrando; depois, Fabiano por fim a mata.
10 - Contas: Fabiano rece a quarta parte na partilha dos bezerros, mas, ao receber a quantia, admitiu estarem erradas as contas do patrão. O capÃtulo dedica-se à exposição dos pensamento de Fabiano, que acredita que por ser rudimentar, as pessoas acham que ele não merecem justiça. Aspira a conseguir juntar dinheiro suficiente para que a famÃlia possa se mudar e ter um lugar próprio. Relembra da época em que criara porcos a fim de vendê-los e que, ao tentar fazê-lo, foram cobrados impostos pela venda; concluiu que o governo sempre se metia naquilo que não devia e que era por isso que não havia prosperidade na região.
11 - O Soldado Amarelo: Fabiano está na vereda, cuidando de uma égua e acaba encontrando o soldado amarelo que o levou preso um ano antes. Sente-se tentado a matar o homem; impulsivamente, levanta o facão e abaixa-o em direção à cabeça do soldado. Pára e observa a fraqueza do homem que, estando tão distante da cobertura do governo, não consegue fazer nada a não ser tremer. Se no capÃtulo segundo, Fabiano concluÃra que era um bicho, aqui concluiu que o outro é um bicho; ele é um homem, pois decide não matar alguém que apenas serve a outra pessoa. Acaba apontando a direção na qual o soldado amarelo deve seguir e volta ao que fazia antes, sentindo-se melhor.
12 - O Mundo Coberto de Penas: Sinhá Vitória concluiu que as arribações (nome das aves) vão acabar matando o gado. A prÃncipio, Fabiano pensa que a mulher está louca, depois concluiu que as aves podem matar o gado porque as arribações beberiam toda a água do bebedouro e os gados, consequentemente, morreriam de sede. Fabiano vai até o morro e começa a atirar nas aves; algumas caem mortas, as penas cobrem todo o chão. Fabiano chega à conclusão de que a seca está voltando e é necessário que eles andem de novo, seguindo adiante; leva as aves, das quais a famÃlia se alimenta. A situação remete Fabiano à morte de Baleia, cujos olhos eram comidos por urubus e também à submissão em relação ao soldado amarelo no capÃtulo anterior.
13 - Fuga: a fazenda se despovoou, os animais morreram. Restavam à famÃlia apenas dar continuidade à viagem; assim, Sinhá Vitória salga a carne das arribações e todos seguem, afastando-se da fazendo, indo na direção da cidade mais próxima, longe da área rural. Embora esteja em silêncio, o casal espera que haja conversa. Por fim, começam a divagar sobre o futuro dos filhos; Sinhá Vitória os imagina em vidas completamente diferente das dos pais e a sua perspectiva agrada Fabiano e a famÃlia segue viagem, caminhando mais uma vez entre os juazeiros, mandacarus, à espera de água e de uma vida melhor.
Agora que já apresentei o assunto abordado nos treze capÃtulos, vou falar o que achei sobre o livro. Confesso que não me anima muito ler essas obras obrigatórias, pois elas normalmente são extremamente maçantes e o leitor leva horas para ler pequenos trechos, o que o cansa a ponto de adiar interminavelmente a leitura de um livro que, se não fosse pelo rebuscamento e pelo ritmo lento, seria lido em três dias. Vidas Secas, considerando o número de páginas, poderia ser lido num único dia. O que me deixou realmente feliz quanto a essa obra é o fato de que o rebuscamento que citei acima não existe: a linguagem é bastante simples, tÃpica da região, descrevendo com eficiência o cenário, mas sem se prolongar infinitamente com assuntos que pouca relevância têm para a história. O maior problema em relação à obra de Graciliano Ramos certamente é alguns substantivos especÃficos que o autor usa a fim de descrever com a maior eficácia possÃvel. Assim, muitas palavras deixam o leitor meio confusa e outras tantas obrigam-no a procurar no dicionário - que muitas vezes não possui descrição para o nome - o significado de palavras como alpercata, aió, etc.
Inquestionavelmente, o autor faz uso do livro para explicitar uma imensa crÃtica à situação na qual as pessoas da região vivem. Não somente aborda aspectos dos quais não se pode fugir, como o ciclo natural da seca, como também narra o abuso que muitas pessoas sofrem por serem como Fabiano e sua famÃlia. Isso se evidencia nas passagens do capÃtulo décimo. E ainda há uma crÃtica maior, que a que fica exposta nos momentos em que Fabiano se vê abusado por aquele que detém o poder e que, por causa disso, se vê no dinheiro se maltratar aqueles que perceptivelmente encontram-se numa degrau social inferior. Algumas figuras de linguagem são bastante usadas durante a obra e eu evidencio primeiramente a hipérbole, presente em muitos momentos, como quando Fabiano se considera a pessoa mais infeliz do mundo e quando diz que, de tão vazio, o estômago é um buraco. Há também metáforas e antÃteses, estas muito mais frequentes. Sugere-se que o próprio tÃtulo seja antitético, afinal, vida é uma alusão à plenitude enquanto a secura contrapõe o substantivo.
De todos os livros de vestibular da lista, acredito realmente que Vidas Secas seja um dos mais fáceis para ler e entender; a leitura de Dom Casmurro - que apresentarei ao final do mês - é bem mais gostosa que a de Vidas Secas, mas, ainda assim, se todos os livros fossem como esse, nós vestibulandos serÃamos pessoas realmente felizes. Logicamente que digo à queles que gostam de literatura modernista para ler esse livro; à queles que não gostam, se não precisam prestar vestibular, sugiro que abstenham-se de lê-lo e apenas o façam quando realmente sentirem vontade. Mas eu realmente tenho que admitir que há passagens excelentes, principalmente aquelas que mostram os pensamentos de Baleia, o que dá um tom de humor a uma obra séria e faz com que o leitor relaxe um pouco, se descontraindo e retomando com mais curiosidade a leitura. Não há diálogos em quantidade muito considerável aqui; desde o começo fica claro que a famÃlia é caipira, não sabe falar como seu Tomás da bolandeira. Logo, os assuntos são descritos pelo narrador e, quando há falas, normalmente se repetem, numa clara alusão ao enxuto vocabulário que a famÃlia possui. Embora bem curta, eu acredito que essa seja uma obra bastante completa e - para quem a analisa profundamente, não com eu acabei de fazer - deve ser bastante complexa também.
LuÃs

criado por LuÃs/Renan
07:15:23 — Arquivado em: 

Comentário por Daniel Silva — quarta-feira, 9 de setembro de 2009 @ 09:57:29
E aÃ, cara. Assim como você não conhece Bob Dylan eu nunca li Vidas Secas, apesar de saber a importância dele. Mas a tua questão é mais fácil de resolver, não acha?
Baixa aÃ: Bob Dylan: Blowin’ In the Wind, Like a Rolling Stone, Hurricane.
As do Jakob Dylan é só clicar em cima dos nomes lá no meu blog que vai direto para o vÃdeo no youtube.
Abraço
Comentário por Rubens — quarta-feira, 9 de setembro de 2009 @ 10:00:51
Nossa adoroe sse livro de leitura fácil você começa e vai tranquilo até o fim, é o melhor passa tempo literário que já lÃ.
ótima dica
Comentário por rogeriosilva — quarta-feira, 9 de setembro de 2009 @ 13:47:04
nunca cheguei a ler esse livro…mas ainda espero ler…ate…
Comentário por Marcelo Augusto — quarta-feira, 9 de setembro de 2009 @ 15:06:20
Um clássico do Modernismo. Vidas Secas retrata da forma mais expressiva o sertão daquela época, e não é uma leitura fácil de se ler. Apresenta várias nuances sociais, é delicadamente natural, rústido.
Adorei a crÃtica de vocês, e gostaria de frisar que o interessante da obra é que se pode ler cada capitulo na sequencia que se desejar.
Parabens novamente!
http://awardmovies.blogspot.com
Comentário por Jonh — quinta-feira, 10 de setembro de 2009 @ 14:23:02
Parabens pelo blog, hoje em dia vemos poucos blogs tao bons em literatura como o seu.
Nunca cheguei a ler Vidas Secas, mas pelo seu post pode-se ver que é um bom livro para ler, alem de ser de leitura facil, com ovoce falou.
E pelo jeito é um livro, no mais, triste.
o ‘9-Baleia’ até me lembrou uma historia que meu avó sempre conta, hehe.
Vou buscar ler o livro. =]
Parabens pelo blog, abraço.
Comentário por Bruno Pongas — quinta-feira, 10 de setembro de 2009 @ 21:19:23
Vidas Secas é um belo livro, embora eu não seja muito fã da linguagem carregada do Graciliano Ramos. No entanto, ainda prefiro Sagarana.
Comentário por Marcelo Augusto — quinta-feira, 10 de setembro de 2009 @ 21:47:55
Hm, passando aqui apenas para dizer que expliquei melhor a idéia do Clube do Filme!
E tambem para dizer, que estou te presenteando com um selo!
Abraços!
Comentário por Irving Maynard — sexta-feira, 11 de setembro de 2009 @ 09:52:16
Não li este livro ainda, mas sou apaixonado pela história centra. Conheco-o somente pelos resumos que vi ou pelo filme. Mas gosto tanto que coloquei o nome da minha cachora de Baleia.
Parabéns pelo blog
Comentário por João [RSN] — terça-feira, 15 de setembro de 2009 @ 20:12:03
grande, grande obra…até por ser nordestino, identifico-me um pouco com a trama.
Parabéns ae!
Comentário por Brean — quarta-feira, 23 de setembro de 2009 @ 02:40:49
Esse livro é muito chocante, eu o li uma vez, e é sem duvida um bom livro
Abraços a todos
Comentário por Ygor Moretti — quinta-feira, 24 de setembro de 2009 @ 14:48:26
Opa fala Luis blz? valeu pela visita, bakana a ideia do teu blog tb, gostaria de fazer mais análises sobre literatura, mas me sinto mais a vontade pra falar de cinema. Sobre Vidas Secas é um dos melhores livros que já li, nem tanto pela história mas pela técnica do Graciliano que diz tanta coisa, descreve tantas coisas usando o minimo de palavras, demais mesmo. abraço!!!
Comentário por Rita — domingo, 4 de outubro de 2009 @ 17:18:17
Gosto muito da cena de Vidas Secas em que Fabiano fala que é homem- cabra- bicho. Ela me remete ao Bentinho (Dom Camurro) que afirma que é homem por beijar Capitu. Duas épocas diferentes e duas cenas parecidas. Explico por qual motivo me chamam a atenção: Fabiano, preso à seca, descreve em poucas palavras e em tom seco o que precisa para sobreviver: o instinto, o se despir da humanidade; já Bentinho indica a alienação social: uma classe que tem bens materiais e conforto, se preocupa com a própria comodidade, e acredita que ser “homem” centra-se na relação amorosa. Sobrevivência, rudeza vs e amor, mordomias. Parecem personagens tão diferentes, mas que “ruminam” sonhos, pensamentos, idéias que não conseguem exprimir.