Literatura e Cinema

“Sem correr no corredor, Nancy” - Freddy Krueger, em A Hora do Pesadelo.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

CACHORRO!

Por Teatro Independente, 70 minutos.

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A peça Cachorro! estava na lista de peças apresentadas na Viagem Teatral e o que me chamou a atenção foi um trecho que dizia: baseada em obras de Nélson Rodrigues. Concluí que iria ver a peça. E agora, ao escrever essa crítica, são tantas as opiniões, todas positivas, que me passam pela cabeça que eu mal sei por qual é melhor começar. É difícil pelo fato da possibilidade de me perder nas vertentes que surgem: discorrer sobre Nelson Rodrigues, falar sobre a peça em si ou no que ambos, peça e escritor, resultam?

Solange e Almeidinha têm um caso. O grande problema disso é o fato de ela ser casada com Apoprígio, que trata Almeidinha como a um irmão. O amante tenta inventar maneiras de ter Solange só pra ele, enquanto ela evita largar o marido, que obviamente desconhece toda a situação na qual está inserido. O minuto inicial da peça já mostra a influência do escritor e também mostra sutilmente, mas com absurda eficiência, o que devemos esperar.  Antes que qualquer ator diga qualquer fala, podemos ouvir a cartomante em suas informações extremamente honestas; não me recordo com exatidão a ordem da fala, mas me lembro bem de certas passagens, tamanho o impacto que a cena proporciona. Ela diz que não precisa ver nas cartas para saber como será o fim daquela história; “conheci uma mulher [...]; morreu degolada e garoto (amante) ficou por aí, pulando carnaval”, diz a cartomante e completa: “esquece esse homem, vai pra sua casa e prepara a comida do seu marido. [...] Vai ter sangue, minha filha. Um bicho vai estraçalhar vocês”. E com essas falas da cartomante e com a cena da imagem, a peça realmente começa. Pelos momentos iniciais, aqueles que conhecem um pouco da obra de Nélson Rodrigues já percebem quantas características dele estão presentes ali: a esposa que trai, a insegurança que a envolve, a sensação de que algo não vai dar certo, etc.

Então, quando a peça realmente começa, exige-se silêncio total para que se possa apreciar a atuação dos três atores, que é fabulosa. Cada um está perfeitamente cabível no seu personagem, sem excessos e sem nos entendiar. A forma como o texto é conduzindo, intercalando os personagens em cena, é favorável para que não nos cansemos de um deles, mas acho que isso é praticamente impossível. Solange é a típica esposa dos livros de Nélson Rodrigues: trai o marido, mas o ama; seu amor, porém, não é carnal, mas quase maternal, tamanha a bondade e inocência do esposo, que traz o amante da esposa para dentro da própria casa e sugere a esposa que o sirva bem, como se ela já não o fizesse. E logo na primeira cena percebe-se isso, pois quando ofende Apoprígio, marido de Solange, ela repreende Almeidinha, o amante, dizendo-lhe que a ofenda, que a ponha de desclassificada para baixo, mas que nunca ousasse repetir aquilo sobre o marido dela. Conforme as cenas vão passando, quem assiste vai entrando no universando rodrigueando através da atuação irrepreensível  dos três atores.

O sucesso do teatro é visível; aposto que por onde passam são aplaudidos em pé. Em Rio Claro, cidade que não tem o hábito de frequentar teatros, a peça conseguir trazer tantas pessoas para assisti-la que nem sequer tinha lugares para que todos se acomodassem. Uma forma de se ver o quão boa é a peça é analisar a quantidade de pessoas de um dia para o outro; no sábado, eu me sentei numa fileira na qual apenas outras três pessoas se sentavam e no domingo tudo estava cheio, pessoas sentadas no chão, cadeiras trazdias com imrpoviso. Isso só pode querer dizer que a peça é realmente ótima. Afirmo com certeza de que há apenas duas peças das quais eu me lembrarei por um bom tempo e esta é uma delas!

Acho que o ponto mais favorável a todo o sucesso da obra é a forma como eles captaram a essência de Nélson Rodrigues e a forma com a qual os atores lidam consigo mesmos quando em cena. Só afirmamos que eles não são de fato um triângulo amoroso porque sabemos que é uma peça, caso contrário acreditaríamos em tudo que vemos, pois eles conseguiram abordar com extrema realidade tudo o que mostram e isso é o mais positivo. Acredito que não haja como não elogiar a direção, pois o diretor certamente fez um trabalho bastante eficaz ao conduzir os atores para que fossem capazes de nos mostrar tal peça. Vi inúmeros teatros até hoje e muitos deles com bastantes acessórios para compor o cenário, o que não garantia a minha apreciação. Em Cachorro!, os elementos usados são basicamente um “biombo” de papel vegetal e três holofotes. Pode parece pouco, mas somente esses elementos são capazes de nos fazer enxergar as indas e vindas dos personagens assim como nos permite localizá-los num cômodo da casa. E essa simples e eficiente maneira de compor as transições e locações me fascinaram, sendo um ponto a mais para a obra.

Gostei bastante também das citações presentes, algumas de maneira bem sutil, mas todas retomando a alguma obra do autor. Tendo lido algumas obras de Nélson Rodrigues e talvez influenciado por isso, percebi certas alusões; Solange começa a citar notícias de jornal sobre mulheres mortas e cita uma que morreu vestida de noiva, o que me remeteu à peça escrita em 1943 chamada Vestido de Noiva. O comportamento de Solange a respeito de Noêmia (personagem apenas citada) me remeteu ao comportamento de Engraçadinha a respeito do envolvimento de sua filha com Letícia, na obra Asfalto Selvagem. Mas é da obra A Vida Como Ela É que se pode ver muitas outras características, principalmente as relacionadas à Solange.Embora já tenho dito isso (umas três vezes), repetirei: todos estão belamente inseridos no universo do escritor!  E é necessário parabenizar quem produziu o texto, pois o fez muito bem.

Após a peça, Renan e eu conversamos um pouco com dois dos atores, que são bastante simpáticos. Eles compõem o Teatro Independente e Cachorro! é a primeira peça deles. Se na primeira peça já mostratam tanta qualidade, se continuarem assim, nem imagino o sucesso da décima peça. Sugiro que vocês visitem o site e leiam mais sobre os atores Carol Pismel, Felipe Abib e Paulo Verlings, que interpretam respectivamente Solange, Almeidinha e Apoprígio, e que também leiam sobre o diretor e os outros dois integrantes do grupo, que espero ver na próxima peça. No site deles, há também o calendário das apresentações. Se tiverem a oportunidade de assistir, façam-no. Se tiver que pagar para isso, faça-o também, pois vale a pena. E não pensem que é uma obra moralista, ou absurdamente séria, porque não é e isso constitui outro acerto. Há um misto de humor, drama, romance e até um beijo com bastante furor. É melhor eu parar de escrever, senão estouro o limite de caracteres e deixo o Renan sem espaço para a crítica dele…

Luís

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Das peças que fui assistir no teatro do SESI (tudo bem que não foram muitas), essa com certeza foi a melhor. Diferente de outras peças que carregam seus textos no surrealismo, essa é totalmente compreensivel a todos, tornado o tempo que passamos no teatro extremamente agradavel. Além disso o texto é muito (foi, e continuará sendo) atual: Uma mulher que trai seu marido com o melhor amigo dele.

Quanto ao cenário, minha impressão foi das melhores. Não foi utilizado nada mais que luminarias e pequenos objetos como o bule de café, flores e outros. Mas com certeza o que mais impressionou foram aquelas divisórias, que de longe parecem ser papel de seda, utilizadas como portas, paredes, além de dar um aspecto bonito e simples a peça, principalmente quando utilizado focos de luz.

Quanto aos atores…acho que não conseguiria traduzir o quão bons eles foram. Como disse o Luis, acho que eles tem afinidade e se não tiverem tanta afinidade assim, é mais uma prova da ótima interpretação deles. É muito fácil de acreditar na amizade entre os dois, e na relaçao de mulher-amante e mulher-marido. Tanto que consegumios entender o lado de Almeidinha, Solange e Apoprigio, não apenas julgando segundo manda a ética, mas conseguindo ver ali o amor entre eles, seja fisico ou fraternal. Além de bons atores, são também muito receptivos (Foi legal ouvir um sotaque diferente também. Carioca no caso).

O texto, como disse acima, é ótimo. Com uma linguagem de fácil compreensão, com xingamentos que usamos no cotidiando (Foi fantástico como “Sua Escrota” pareceu uma agressão mais forte que um tapa na cara), além de conter frases que me fizeram pensar, entre elas estão: “Anonimos não mentem”, e que o amor de marido e mulher era um “Amor de fotografia, triste”. Outro ponto legal foi a oscilação entre comédia e drama existente lá. Em algumas horas o espectador está rindo, e no segundo depois sentimos a tensão da cena e ficamos em silencio. E a história também é surpreendente. É incrivel ver Solange defedendo seu marido,se colocando no lugar dele para que as pedras sejam atiradas e dizendo que ele é um santo. Ou ver ela morrendo de medo de levar um tiro na boca, e virar um recorte como os que ela colecionava “O que meu pai dirá? Boca de mulher foi feita para passar batom”, diz ela, e o mais legal foi que eu não achei nem um pouco futil esse pedido. Boas também as cenas entre Almeidinha e Apoprigio, nos fazendo pensar se um amigo, realmente faria aquilo, usando todo o cinismo e a cara de pau que Almeidinha usa ou [SPOILER] um marido teria a coragem de matar sua amada esposa sufocada e a si mesmo depois [FIM DO SPOILER]

Com certeza é um teatro que valha a pena ver. Melhor que muitos filmes comentados aqui. Então se você tiver a oportunidade de ve-lo…chegue cedo, pois com certeza os ingressos se esgotarão rapidamente.

P.s: Me assustei em ver que realmente o ator pos uma folha inteira na boca, sem que aparecesse nenhum volume nas bochechas.

Renan

criado por Luís/Renan    18:17:04 — Arquivado em: Teatro

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

FIM

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Tentarei fazer uma crítica impessoal do trabalho apresentado. Embora o nosso Blog seja voltado para filmes e livros, o teatro também é uma forma de tornar-se mais culto e também é uma arte que aprecio bastante, por isso acho que devemos dar espaço para comentários a respeito. Nunca havia vito nenhuma peça pessoalmente do Grupo de Teatro Incômodo, mas estudo com uma garota que integra o elenco do grupo Incômodo, que roteirizaram e apresentaram a peça intitulada FIM.

Com devem ter lido ao clicar na fotografia do convite, a peça enfoca uma situação que não parece cabível para o nosso mundo tão bem estruturado, tão tecnológico: e se o mundo acabasse? Como seria a reação das pessoas se fose hoje o último dia de vida? Enfim, a peça mostra situações que são cabíveis ao nosso cotidiano, o que me fez gostar ainda mais. Os personagens têm a oportunidade de fazer aquilo que querem sem se preocupar com as consequências, pois pelo que sabem o mundo terminará no dia seguinte. Nenhum personagem, no entanto, se esforça pra tentar chegar à lua; eles fazem o que é cabível à situação em qu vivem. Podem dar um último abraçar, rever um ente querido, dizer o que vem sendo sufocado, etc. Eis um dos pontos fortes da peça, embora nem de longe seja o melhor!

Sobre os atores, alguns apareceram mais que outros, mas isso em comum em uma peça de teatro. Acho que o grande acerto foi misturar humor com drama; apostando que todo o público fosse atingindo de alguma forma, alguns pelo risos, outros pelo choro. Costumo não achar graça em peças cômicas, porque o humor costuma ser muito parco; nessa peça, no entanto, o humor aconteceu na medida certa, sem grandes extravgâncias e sem muitas piadinhas internas e isso com certeza fez com que eugostasse mais ainda da peça. Vale realçar também o quanto foi engraçado os palhaços imitando a cena anterior, interpretada por um casal. A alternância entre o cômico e o trágico foi importante pra manter um clima equilibrado e suave, assim o público não se sente entorpecido por uma carga excessiva por muito tempo.

Quando disse sobre o grande ponto forte do espetáculo, me referia ao que vou comentar a seguir. Acho que o que mais me surpreendeu foi a última cena da peça, em que uma mulher se abraça a camisa do homem que ama e chora o fato de ele ter partido. Pela primeira vez em toda a peça, vemos “o fim do mundo” de uma forma muito subjetiva, o que, na minha opinião, fez de tudo muito mais legal. Nessa cena, o mundo não termina quando a vida toda na Terra deixa literalmente de existir, mas sim quando algo dentro de nós, aquilo que há de mais explêndido, desaparece. Esse é o fim do mundo da personagem, numa das cenas que achei mais bem trabalhadas durante o teatro e também a mais emocionante. [SPOILER] Outro ponto muito positivo é o fato de o fim do mundo sendo noticiado ser apenas um engano. Logo, quando percebem que o mundo não acabou, que podem fazer os personagens senão se questionar sobre aquilo que fizeram um dia antes, como o caso dos amigos que confessara se amar num dia para no outro sentirem vrgonha da confissão? [SPOILER] Depois de tudo que nós vemos, ficamos com uma dúvida que a peça sugere indiretamente: e se fizermos algo hoje e o amanhã incerto trazer consigo o peso das conseqüêncas desse nosso ato? Mas e se não fizermos hoje e o amanhã não existir?!

Eis o ponto negativo agora. Não é uma crítica à peça, mas sim ao público que insiste em se comportar inadequadamente durante a apresentação, como na cena em que os dois amigos confessam amar um o outro e alguns seres desprezíveis na platéia de manisfestaram de maneira imprópria, fazend barulho, dizendo ofensas, ruídos, etc. Qualquer pessoa que vá ver uma exibição desse nível intelectual deve estar com a mente aberta para as possíveis cenas que o tema possa sugerir e mesmo se acher desnecessário uma determinada cena, o que se deve fazer é manter-s calado, sem manifestações idiotas que atrapalham quem quer ouvir e principalmente quem está no palco atuando. O único momento em que o público tem direito à manifestação é no final, pra aplaudir enquanto os atores reverenciam. Enfim, de uma maneira geral, a peça é muito boa, sim. Pena que não vá sair pra exibição em outras cidades, porque tenho certeza de que muitos iriam gostar.

Luís

criado por Luís/Renan    21:08:45 — Arquivado em: Outros, Teatro
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